A UM PASSARINHO – Vinicius de Moraes
Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.
Deixa-te de histórias
Some-te daqui!
AMBIGUIDADE
Em termos gerais, a palavra ambiguidade traduz a ocorrência de mais do que um sentido em palavras, frases, proposições ou textos.
Alguns exemplos:
1. O cadáver foi encontrado perto do banco.
- Não sabemos se o cadáver foi encontrado perto de uma casa bancária ou ao lado de um banco de jardim. A ambiguidade nasce da palavra banco, que pode ser usada em diferentes acepções.
2. Pedro pediu a José para sair.
- Neste caso, a ambiguidade não nasce de uma palavra de duplo sentido, mas, sim, da própria estrutura da frase. Que idéia a frase expressa: a) Pedro pediu permissão a José para sair um pouco ou b) Pedro pediu a José que fizesse o favor de sair um pouco?
3. O advogado disse ao réu que suas palavras convenceriam o juiz.
- As palavras de quem convenceriam o juiz: do réu ou do advogado?
4. Crianças que comem doce frequentemente têm cáries.
- A posição do adjunto adverbial complica tudo na frase: as crianças têm cáries porque comem doce com frequência ou há mais probabilidade de ocorrerem cáries em crianças que comem doces?
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RECURSO ESTILÍSTICO A ambiguidade, contudo, nem sempre é um erro de expressão ou um vício de linguagem. Em literatura, o texto pode ser polissêmico, ou seja, apresentar multiplicidade de sentidos. O professor Berthold Zilly, tradutor de Machado de Assis na Alemanha, cita, em uma entrevista, exatamente essa qualidade do texto machadiano: “Ele [Machado de Assis] é notório pelas suas expressões e frases ambíguas. Há pouco, por exemplo, estive refletindo sobre uma frase do livro [Memorial de Aires]. O narrador diz: ‘Já tenho embarcado e desembarcado muitas vezes, devia estar gasto. Pois não estou’. O que ele quer dizer com ‘gasto’? Acostumado, cansado, insensível – acho que é por aí. Mas não é o sentido normal da palavra, não é o convencional. E ele reiteradamente usa palavras fora do seu sentido convencional. Praticamente a cada duas frases há uma dificuldade semelhante. Não se sabe também 100% o que ele quer dizer, há várias interpretações”. |
Semântica, Rodolfo Ilari & João Wanderley Geraldi, Editora Ática, 7ª edição, 1995.
A estilística, José Lemos Monteiro, Editora Ática, 1991.
“Ambiguidade dificulta tradução de Machado, diz tradutor alemão”
FONTE: http://vestibular.uol.com.br
FIGURAS DE SINTAXE
Quando escrevemos, buscamos maneiras de exprimir nosso pensamento. Para tanto, utilizamos diferentes recursos, dentre eles, as figuras de sintaxe, ou seja, diferentes formas de se construir as frases:
- Pleonasmo: superabundância de palavras para enunciar uma ideia:
a) quando se procura reproduzir a fala popular:
“Entra pra dentro, Carlinhos. ” (José Lins do Rego)b) emprego do adjetivo como epíteto de natureza:
“E a Noite sou eu própria! A Noite escura!! (Florbela Espanca)Objeto pleonástico:
a) Para dar realce ao objeto direto, é costume colocá-lo no início da frase e, depois, repeti-lo com a forma pronominal o (a, os, as):
“Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.” (Mário Quintana)b) O pronome lhe também pode reiterar o objeto indireto:
Ao homem mesquinho basta-lhe um burrinho.c) Para ressaltar o objeto (direto ou indireto), usa-se fazer acompanhar um pronome átono da correspondente forma tônica regida da preposição a:
“A mim não me enganas tu.” (Miguel Torga) - Hipérbato: utilizando-se a intercalação de um membro frásico, separam-se palavras que pertencem ao mesmo sintagma:
“Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia? ” (Fernando Pessoa) - Anástrofe: inversão que consiste na anteposição do determinante (preposição + substantivo) ao determinado:
“Vingai a pátria ou valentes
Da pátria tombai no chão!” (Fagundes Varela)(Observação: gramáticos e teóricos de literatura têm diferentes definições para “hipérbato” e “anástrofe”, o que tem levado a se fazer uma classificação mais geral, unindo as duas figuras sob o termo de “inversão”.)
| • Elipse: omissão de termos ou expressões que ficam subentendidos na frase:
1) Elipse como processo gramatical: a) Elipse do sujeito: b) Elipse do verbo: c) Elipse de preposição: d) Elipse da preposição de antes da integrante que introduz as orações objetivas indiretas e as completivas nominais: e) Elipse da conjunção integrante que: 2) Elipse como processo estilístico (trata-se de um recurso condensador da expressão): a) na descrição esquemática de ambientes, de estados de alma, de perfis: b) em anotações rápidas: c) na enunciação de pensamentos condensados, ditos sentenciosos ou irônicos: d) nas enumerações: |
- Zeugma: é uma forma de elipse. O termo utilizado em um enunciado participa de outro, mas sem estar expresso:
“ A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.” [Entenda-se: Os altares eram humildes.] (Carlos Drummond de Andrade) - Prolepse (ou antecipação) : deslocação de um termo de uma oração para outra que a preceda:
” - O próprio ministro dizem que não gostou do ato.” (Machado de Assis) - Sínquise: inversão violenta das palavras de uma frase:
“Da fonte dos meus olhos nunca enxuta
A corrente fatal, fico indeciso,
Ao ver quanto em meu dano se executa.” (Cláudio Manuel da Costa)Em ordem direta, teríamos: “Ao ver quanto se executa em meu dano, fico indeciso [perante] a corrente fatal da fonte dos meus olhos [que] nunca [está] enxuta.
- Assíndeto: vigoroso processo de encadeamento do enunciado, que exige do leitor uma atenção maior no exame de cada fato:
“A barca vinha perto, chegou, atracou, entramos. ” (Machado de Assis) - Polissíndeto: é o contrário do assíndeto, ou seja, emprego reiterado de conjunções coordenativas, especialmente das aditivas:
“O quinhão que me coube é humilde, pior do que isto: nulo. Nem glória, nem amores, nem santidade, nem heroísmo. “(Otto Lara Resende) - Anacoluto: mudança de construção sintática no meio do enunciado, geralmente depois de uma pausa sensível:
“Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas, de tão imprestáveis. “(José Lins do Rego) - Silepse: concordância que se faz não com a forma gramatical das palavras, mas com o seu sentido, com a ideia que elas expressam:
a) Silepse de número:
“Deu-me notícias da gente Aguiar; estão bons. ” (Machado de Assis)b) Silepse de gênero:
“ – V. Ex.ª parece magoado…” (Carlos Drummond de Andrade)c) Silepse de pessoa:
“Sós os quatro velhos – o desembargador com os três – fazíamos planos futuros. ” (Machado de Assis)“No fundo a gente se consolava, pensávamos em nós mesmos. ” (Autran Dourado)
- Anáfora: repetição de palavras ou expressões no início de versos ou frases:
“Como no tanque de um palácio mago
Dois alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas que o barqueiro frisa,
Dois nenuferes sobre o azul do lago [...]“
(Castro Alves)