GALINHA CEGA – João Alphonsus

27 09 2010

Na manhã sadia, o homem de barbas poentas, entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão molengo:

- Frangos BONS E BARATOS!

Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam apenas que os soltassem. Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando no terreiro amplo e longe.

- Psiu!

Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.

Quanto? Tanto. Mas puseram-se a discutir exaustivamente os preços.

Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O comprador brusco.

- Olhe esta franguinha branca. Então não vale?

- Está gordota… E que bonitos olhos ela tem. Pretotes… Vá lá!

O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu em gritar pela rua que despertava:

- Frangos BONS E BARATOS!

Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no barracão.

- Olha, Inácia, o que eu comprei.

A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas rugas.

Permaneceu calada.

- Olha os olhos. Pretotes…

- É.

- Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa galinha.

- É.

No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe atirava divertidíssimo.

A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os galináceos podiam flanar à vontade e dormir a sesta.

A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregaram os balaios a trouxe-mouxe para um galinheiro sobre rodas, comprido e distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante, formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um cheiro paulificante. De longe em longe as paisagens paravam. Mas novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e apareceram fagulhas.Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo. Adormecera numa enjoada madorna…

Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia de sede e fome.

Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele, bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que era bem bonito. Já lá vinha… Sujeito cacete.

O galo – có, có, có – có, có, có – rodeou-a, abriu a asa, arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram pelo mato numa carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar, querendo e não querendo.

- A melhor galinha, Inácia! Boa à beça!

- Não sei por quê.

- Você sempre besta! Pois eu sei…

- Besta! besta, hein?

- Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu gosto da galinha e fica me amolando.

- Besta é você!

- Eu sei que eu sou.

Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi correndo defender o seu quinhão, e os olhos do dono descansaram em suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a anormalidade. A branquinha – era o nome que o dono lhe botara – bicava

o chão doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até catar um grão que nem sempre era aquele que visava.

O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas

não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu. Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, ai… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.

Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.

Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos, abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre, indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente, pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se finando quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em redor se havia sumido.

Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo. As outras cantavam.

Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria ver! Para depois cantar.

As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.

- A coitada está cega, Inácia! Cega!

- É.

Nos olhos raiados de sangue do carroceiro (ele era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.

Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão calosa.

E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se espargiam nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele.

Impressão, aliás, algo confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura. Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do cercado.

Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem, puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace, ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas. E tal crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso de substância córnea no

serzinho desgraçado e querido.

Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz. Tinha delidas lembranças da claridade sumida. No terreiro plano ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol debaixo do seu poleiro solitário.

Ainda tinha liberdade – o pouco de liberdade necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas bonitas.

E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O ingrato.

Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati, ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:

- Coitadinha da minha ceguinha!

- Tadinha da ceguinha…

Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.

De repente os acontecimentos se precipitaram.

- Entra!

- Centra!

A meninada ria a maldade atávica no gozo do futebol originalíssimo.

A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.

O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para atingir umas nádegas tenras. Zebrou carnes nos estalos da longa tira de sola.

O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos pesados, revolta.

- Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia.

Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na garganta.

Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.

- Onde está a galinha, Inácia?

- Vai ver.

Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue…

Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher se esbugalharam de pavor.

- Não fui eu não! Com certeza um gambá!

- Você não viu?

- Não acordei! Não pude acordar!

Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A velha tombou nocaute, mas sem aguardar a contagem dos pontos escapuliu para a rua gritando: – Me acudam!

Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha açambarcado todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças tremendas contra o gambá.

Todo gambá é pau-d’água. Deixaria uma gamela com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse, havia de matá-lo aos poucos. De-va-gari-nho.

GOSTOSAMENTE.

De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando. Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra mancha escura que se movia dificilmente.

Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado, examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos espertos e inocentes, e começou a rir:

- Kiss! kiss! kiss!

(Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)

O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que favorece os surtos de raposas e gambás nos galinheiros, era esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:

- Vai embora, seu tratante!

O gambá foi indo tropegamente. Passou por baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:

- A lua como um balão balança!

A lua como um balão balança!

A lua como um ……

E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.

Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_ – _Italo_Moriconi 





VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa

24 09 2010

Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

- A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

- Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros.

Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

- O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado -

fantasma que se escondia sob a cama.

- O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da

falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada?

Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

- Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

- Que foi?

- Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com

a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para

serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

- Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito

sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora.

Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar

“obrigado”.

- Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

- Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando

futebol nas ruas.

- Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos,

aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela

Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

- Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso,

ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete

anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos?

Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se

iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou

outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou

o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

- Tem tanto pó!

- Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou,

varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina,

em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

- Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz

crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria,

enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as

camisas no guarda-roupa?

- Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as

suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os

instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que

os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado.

O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão

da gargalhada. Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço

dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam

sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de

água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a

ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma

sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para

brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo

de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no

peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom

tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

- Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora.

Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubi na. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança

daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam

ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

- Coração?

- Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

- Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

- O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

- No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo

raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam

um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta

me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos,

sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão

rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não

sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

- O que vocês fizeram foi bonito.

- São coisas que eu preciso esquecer.

- Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo

aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque

acreditou na vida.

- É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande,

parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada

nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se

apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também

aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como

se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos

essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com

entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito

persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal

e tirou o açúcar branco.

- A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou.

Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta

quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem

reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

- Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão

pré-menstrual? Que havia?

- Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos.

Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

- Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu

sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de

doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a

voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

- É o amor nos recriando – diziam um ao outro.

 

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Antologia de Contos Brasileiros

10 08 2010

Quanto à divulgação deste material, digo:

Este blog não visa fins lucrativos, não tem nenhum tipo de ganho com nada do que aqui é publicado, não divulgo banners de empresas como forma de fazer propaganda e tirar algum tipo de proveito financeiro.

Os direitos autorais estão aí e serão respeitados.

Aproveito para dizer que não se compara uma leitura on line com a que se faz com o livro na mão.  Acredito que o livro virtual só serve para aguçar a vontade de continuar a leitura com a compra do livro.

Caso haja alguma objeção, por parte dos que respondem por este material, contate-me, por favor.

Faça aqui o download dos contos considerados os 100 melhores brasileiros do século:

Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_-_Italo_Moriconi

Títulos dos contos e seus autores:

Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século





A LÓGICA DE EINSTEIN

2 12 2009

Conta-se que duas crianças estavam patinando num lago congelado da Alemanha. Era uma tarde nublada e fria e as crianças brincavam despreocupadas. De repente, o gelo se quebrou e uma delas caiu, ficando presa na fenda que se formou. A outra, vendo seu amigo preso e se congelando, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim quebrá-lo e libertar seu amigo. Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino:

- Como você conseguiu fazer isso? É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!

Nesse instante, o gênio Albert Einstein que passava pelo local, comentou:

- Eu sei como ele conseguiu.

Todos perguntaram:

- Pode nos dizer como?

-É simples, respondeu Einstein.

Não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não seria capaz.

“Fazer ou não fazer algo, só depende de nossa vontade e perseverança”

 

 

CONCLUSÃO:

Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação, porque sua consciência é o que você é, sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles.





A BELA E A FERA – Jeanne Marie Leprince

6 05 2009

 

adeus 

Era uma vez um jovem príncipe que vivia no seu lindo castelo. Apesar de toda a sua riqueza ele era muito egoísta e não tinha amigos.
Numa noite chuvosa recebeu a visita de uma velhinha que lhe pediu abrigo só por aquela noite.

Com um enorme mau humor ele se recusou a ajudar a velhinha. Porém, o que ele não sabia é que aquela velhinha era uma bruxa disfarçada, que já ouvira diversas histórias sobre o egoísmo daquele jovem príncipe. Indignada com a sua atitude, ela lançou sobre ele um feitiço que o transformara numa fera horrível. Todos os seu criados haviam se transformado em objetos. O encanto só poderia ser desfeito se ele recebesse um beijo de amor.

Enquanto isso, numa vila distante dali, vivia um comerciante com sua filha chamada Bela. Eles eram pobres, mas muito felizes.
Bela adorava livros, histórias, vivia a contá-las para as crianças da vila. Seu pai, Maurício, era comerciante e viajava muito comprando e vendendo seus produtos diversos.

Um dia voltando de uma longa viagem, Maurício foi pego de surpresa por uma forte tempestade, passou em frente a um castelo que parecia abandonado e resolveu pedir acolhida. Bateu à porta, mas ninguém o atendeu. Como a porta do castelo estava aberta resolveu entrar e se proteger da chuva. Acendeu a lareira e encontrou uma garrafa de vinho sobre a mesma. Após bebê-la acabou adormecendo. No dia seguinte uma Fera furiosa apareceu diante dele. Castigou-o por invadir o seu castelo fazendo dele prisioneiro.

A Fera decretou ao velho comerciante que este morreria por tal invasão. Aterrorizado, o pobre homem suplicou:

__ Deixa que me despeça da minha filha.

A Fera concedeu-lhe o pedido. De volta a sua casa, contou o ocorrido a sua filha.

Sem medo, ela decidiu voltar ao palácio com o pai.

Uma vez no palácio da Fera, Bela tomou coragem e fez uma proposta:

___Deixa meu pai ir embora. Eu ficarei no lugar dele.

A Fera concordou, e o pobre comerciante foi embora desolado.

A jovem permaneceu com a Fera no castelo, mas não era mantida na prisão, podia ficar em um quarto ou na biblioteca, local que muito a agradava.
Bela tinha medo de morrer, mas percebia que a Fera a tratava bem a cada dia que passava.

Com o passar do tempo o monstro e a Bela foram ficando mais amigos. Ele se encantava com a forma que a moça via o mundo, as pessoas a natureza. Sentia que ela o via de uma forma diferente, além da sua aparência.

A Fera enfim havia se apaixonado, de verdade. Numa noite, ao jantarem, pediu-a em casamento. Bela não aceitou, mas ofereceu sua amizade.

Apesar da tristeza, a Fera, aceitou o desejo da Bela.
Bela , por sua vez, passava dias muito agradáveis no castelo, sentia-se bem lá, porém com muitas saudades do seu pobre pai.

Certo dia dia, Bela pediu permissão à Fera para visitar o seu pai.

____ Voltarei logo – prometeu.

A Fera, que nada lhe podia negar, a deixou partir. Bela passou muitos dias cuidando de seu pai, que estava doente, tinha envelhecido de tristeza pensando que tinha perdido a filha para sempre.

Quando Bela retornou ao palácio, encontrou a Fera no chão meio morta de saudade por sua ausência. Então Bela soube o quanto era amada. Bela se desesperou, também sentia um algo forte pela Fera. Amizade, amor compaixão.

____ Não morras, caso-me contigo – disse-lhe chorando.

Comovida, a Bela beijou a Fera… e nesse momento o monstro transformou-se num belo príncipe. Enfim, o encanto havia se desfeito. A Fera encontrou alguém que o amava de verdade, além da sua aparência grotesca.
Afinal, a verdadeira beleza está no coração.





13 MELHORES CONTOS DE AMOR DA LITERATURA BRASILEIRA

2 03 2009

 

13 MELHORES CONTOS DE AMOR DA LITERATURA BRASILEIRA

“Vasto mundo” – Maria Valéria Rezende
“Jason” – Lívia Garcia-Roza
“Emanuel” – Lygia Fagundes Telles
“O homem que voltou ao frio” – Cíntia Moscovich
“Histórias de gente e anjos” – Lya Luft
“Onde os oceanos se encontram” – Marina Colasanti
“Conto de verão nº 2: Bandeira branca” – Luis Fernando Veríssimo
“Tílburi de praça” – Raul Pompéia
“História de amor em cartas” – Carlos Drummond de Andrade
“Uns braços” – Machado de Assis
“A parada da ilusão” – João do Rio
“Anotações sobre um amor urbano” – Caio Fernando Abreu
“O amor acaba” – Paulo Mendes Campos

Ed. Ediouro – 2003 – Organização Rosa Maria Strausz





BALEIA – Graciliano Ramos

17 02 2009

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o sacatrapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

- Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Fia também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

- Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.

Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:

- Ecô! ecô!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras.

Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.

Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

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CONTO (NÃO CONTO) – Sérgio Sant’Anna

2 12 2008

Conto (não conto)

Sérgio Sant’Anna

Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça vôo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra. Mas o que são os zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo. Talvez não se possa separá-los do silêncio ao seu redor. E o que é também o silêncio se não existem ouvidos? Perguntem, por exemplo, a esses arbustos. Mas arbustos não respondem. E como poderiam responder? Com o silêncio, lógico, ou num imperceptível bater de suas folhas. Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?Mas suponhamos que existissem, um dia, esses ouvidos. Um homem que passasse, por exemplo, com uma carroça e um cavalo. Podemos imaginá-los. O cavalo que passa um dia e depois outro e depois outro, cumprindo sua missão de cavalo: passar puxando uma carroça. Até que um dia veio a cobra e zás: o sangue escorrendo da carne do cavalo. O cavalo propriamente dito – isto é, o cérebro do cavalo-sabe que algo já não vai tão bem quanto antes. Onde estariam certos ruídos, o eco de suas patas atrás de um morro, o correr do riacho muito longe, o cheiro de bosta, essas coisas que dão segurança a um cavalo? Onde está tudo isso, digam-me?O carroceiro olha tristemente para o cavalo: somos apenas nós dois aqui neste espaço, mas o cavalo morre. Relincha, geme, sem entender. Ou entendendo tudo, com seu cérebro de cavalo. Diga-me, cavalinho: o que sente um cavalo diante da morte?

Diga-me mais, cavalinho: o que é a dor de um homem quando não há ninguém por perto? Um homem, por exemplo, que caiu num buraco muito fundo e quebrou as duas pernas. Talvez essa dor devore a si mesma, como uma cobra se engolindo pelo rabo.

Mas tudo isso é nada. Não se param as coisas por causa de um cavalo. Não se param as coisas nem mesmo por causa de um homem. Esse homem que enterrou o cavalo, não sem antes cortar um pedaço de sua carne, para comer mais tarde. E agora o homem tinha que puxar ele mesmo a carroça. E logo afastou do pensamento a dor por causa de seu cavalinho querido. O homem agora tinha até raiva do cavalo, por ele ter morrido. O homem estava com vergonha de que o vissem – ele, um ser humano – puxando uma carroça. Mas por que seria indigno de um ser humano puxar uma carroça? Por que não seria indigno também de um cavalo? Ora, um cavalo não liga para essas coisas, vocês respondem. No que têm toda razão.

E afinal, não podemos saber se o viram ou não, o homem puxando sua carroça, pois nos ocupamos apenas do que se passa aqui, neste espaço, onde nada se passa. Mas de uma coisa temos certeza: esse homem também encontrou um dia sua hora. E talvez – porque não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem filhos nem amigos – ele haja se lembrado, na hora da morte, de seu cavalo. O homem pensou, talvez, que agora iria encontrar-se com o cavalo, do outro lado. Sim, do outro lado: de onde vêm os ecos e o vento e onde se encontram para sempre homens e cavalos.

Por esse outro lado há uma linha tênue, que às vezes se atravessa – uma fronteira. Essa linha, você atravessa, retorna; atravessa outra vez, retorna, recua de medo. Até que um dia vai e não volta mais.

Aquele homem, no tempo em que atravessava este espaço aqui, beirando a fronteira do outro lado, gritava para escutar o eco e sorria para o cavalo. O homem tinha certeza de que o cavalo sorria de volta, com seus enormes dentes amarelos. O homem era louco. Mas o que é a loucura num espaço onde só existem um homem e um cavalo? E talvez o cavalo sorrisse de verdade, sabendo que ali não poderiam acusá-lo de animal maluco e chicoteá-lo por causa isso.

Depois foram embora o homem e o cavalo. O cavalo, para debaixo da terra, alimentar os vermes que também ocupam este espaço, apesar de invisíveis. Principalmente porque não há olhos para vê-los. Já o homem foi morrer mais longe. E ficou de novo este território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Não sabemos por quanto tempo, porque não existe tempo quando não existem coisas, homens, movimentando-se no espaço.

Mas, subitamente, eis que este território é de novo invadido. Vieram outros homens e máquinas, e acenderam fogo, montaram barracas, coisas desse tipo, que os homens fazem. Tudo isso, imaginem, para estender fios em postes de madeira. (Fios telegráficos, explicamos, embora aqui se desconheçam tais nomes e engenhos.) Então o silêncio das noites e dias era quebrado por um tipo diferente de zumbidos. Mas para quem esses zumbidos, se aqui ninguém escuta, a não ser insetos? E de que valem novos zumbidos para insetos, que já os produzem tão bem? Sim, vocês estão certos: os zumbidos destinavam-se a pessoas mais distantes, talvez no lugar onde morreu o dono do cavalo. O que não nos interessa, pois só cuidamos daqui, deste espaço.

Mas, de qualquer modo. Todos eles (insetos, cobras, animaizinhos cujo nome não se conhece, sem nos esquecermos dos vermes, que haviam engordado com a carne do cavalo) sentiram-se melhor quando vieram outros homens – bandidos, com certeza – e roubaram os postes, fios e zumbidos. Agora tudo estava novamente como antes, tudo era normal: um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma pequena cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação – e a cravar seus dentes numa folha.
Às vezes, porém, aqui é tão monótono que se imagina ver um vulto que se move por detrás dos arbustos. Alguém que passa, agachado? Um fantasma? Mas como, se há soluços? Por acaso soluçam, os fantasmas? Mas o fato é que, de repente, escutam-se (ou se acredita escutar) esses lamentos, uma angústia quase silenciosa.

Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo. Ou talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo. Ah, apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados. Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino?

Mas o que estão a imaginar? Isso aqui é apenas um menino – ou um macaquinho – de papel e tinta. E, depois, se fosse verdade, o menino poderia morrer pela cobra. Ou então matar a cobra e tornar-se um homem. No caso do macaquinho, tornar-se um macacão. Um desses gorilas que batem no peito cabeludo, ameaçando a todos. Talvez porque se recordasse do medo que sentiu da cobra. Mas não se esqueçam, são todos de papel e tinta: o menino, o macaquinho, o macacão, seus urros e os socos que dá no próprio peito cabeludo. Cabelos de papel, naturalmente. E, portanto, não há motivos para sustos.

Pois aqui é somente um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Quase um deserto, onde até os pássaros voam muito alto. Porque depois, em certa ocasião, houve uma aridez tão terrível que os arbustos se queimaram e a cobra foi embora, desiludida. No princípio, os insetos se sentiram muito aliviados, mas logo perceberam como é vazia de emoções a vida dos insetos quando não existe uma cobra a perseguí-los. E também se mandaram, no que logo foram seguidos subterraneamente pelos vermes, que já estavam emagrecendo na ausência de cadáveres.

Então ficou aqui um território ainda mais vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Nem mesmo uma cobra a insinuar-se pelas pedras e pela vegetação. Pois não há vegetação e, muito menos, cobras.

Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha.

Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar.

 

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PORQUE LULU BERGANTIM NÃO ATRAVESSOU O RUBICON – José Cândido de Carvalho

28 11 2008

Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:

— Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando “O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor” que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:

— Ou vai ou racha!

E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:

— Agora a gente vai fazer serviço de tatu!

O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do “salutar benefício do chamado precioso líquido”. Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:

— Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.

Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:

— Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!

Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.

 

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DOIS CORPOS QUE CAEM – João Silvério Trevisan

27 11 2008

Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo.
- Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você?
- Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço.
E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar.
- O que você faz aqui? – perguntou Antônio.
- Estou me matando – respondeu João. – E você?
- Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê?
- Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos…
- E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte.
- Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica
- gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida!
- Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panacéia!
- Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância
da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz.
Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade.
- E você, como se sente? – perguntou João a Antônio.
- Oh, agora estou plenamente satisfeito.
- Então por que busca a morte?
- Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério.
- Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida?
- Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério.
- Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João.
- Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe…
- Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou.
- Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total.
- Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos drapejando ao vento.
- Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças:
- Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva.
E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz:
- Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo.
- E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis?
Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz.

 

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ESTÃO APENAS ENSAIANDO – Bernardo Carvalho

26 11 2008

 

Estão apenas ensaiando. Ao mesmo tempo em que os dois atores avançam pelo palco, saindo das coxias à esquerda para o centro da cena, um homem entra na sala escura, e com ele uma nesga da luz das cinco pela fresta da porta que entreabriu ao fundo e que separa a platéia do hall e da rua, onde o dia segue o seu curso com um burburinho de buzinas, motores e sirenes. O diretor, na quinta fila, procura com a mão, tateando, a coxa de sua assistente, para lhe dizer alguma coisa ao ouvido, e o iluminador interrompe a piada que ia sussurrando ao técnico a seu lado, no mezanino, já que retomam a cena. Quando os dois atores colocam os pés de novo no palco, avançando das coxias à esquerda para o centro, e interrompendo também o que sussurravam um ao outro nos bastidores, para passar em alto e bom som ao diálogo que decoraram, o homem que acabou de entrar ao fundo é ainda menos que um vulto sem rosto, porque já não tem nem mesmo a nesga de luz das cinco para destacá-lo da penumbra, agora que a porta que separa a sala escura do hall e da rua se fechou. O diretor com a mão na coxa da assistente, depois de lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido, que a faz rir baixinho, controlada, espera ansioso, e pela enésima vez, que a fala seja dita pelo ator com a entonação desejada, e o iluminador, no mezanino, aguarda por seu turno uma nova interrupção no fundo, mesmo que inconscien­temente, torce por mais um fracasso da interpretação, para poder terminar de uma vez por todas a piada que contava ao técnico.
Um ator diz ao outro, no centro do palco: “Você é o malfeitor; e por isso preciso saber quem é você, onde está, de onde vem, do que é capaz para ter tamanho poder e me provocar sem prevenir, devastando o meu pasto verdejante, e minando, para derrubá-lo, o meu muro de arrimo.” E é quando o outro, que embora sem a foice ou o manto (estão apenas ensaiando) responde pela morte, vai abrindo a boca, que o diretor mais uma vez, tirando a mão da coxa da assistente, interrompe a cena com um gesto, para perguntar num tom propositalmente inaudível, de tão irritado que está, quantas vezes mais vai ter de explicar.

Ele repete, como se falasse para dentro, que se trata de um texto do século XV, que o humilde lavrador invoca a morte (aqui representada por um homem) com as palavras que lhe restam como último recurso, quer que ela se compadeça dele e lhe devolva a mulher adorada, vítima das atrocidades da guerra. O diretor repete irritado que falta vigor à interpretação do ator, e desespero, não parece que o humilde lavrador esteja realmente sofrendo ou indignado pela injustiça da morte da mulher na flor da idade. Diz isso aos dois atores e depois, enquanto eles voltam para as coxias, sussurra a mesma coisa ao ouvido da assistente, arrematando com uma gracinha que a faz sacudir num risinho sincopado.

De volta às coxias, o ator que interpreta o humilde lavrador aproveita para retomar com o outro que interpreta a morte o sussurro que havia interrompido. Desanca o diretor, diz que não dá para mostrar desespero com um texto daqueles, inverossímil, ninguém vai falar com a morte daquele jeito depois de perder a mulher de uma maneira violenta. Resmunga baixinho qualquer coisa sobre o tipo de representação que aquela cena exige, na sua opinião, e que tem a ver com um certo distanciamento. De repente, no meio da frase sussurrada, olhando o relógio (não precisa tirá-lo, estão apenas ensaiando), exclama a hora num murmúrio, fala qualquer coisa sobre o atraso da própria mulher, que ela já devia ter chegado, e ao mesmo tempo em que diz isso, o iluminador no mezanino tenta inutilmente sussurrar o final da sua piada, porque mal esboça o desenlace cômico e os dois atores já estão de volta ao palco, seguindo os sinais mudos da assistente do diretor, e o homem ao fundo da sala, após uns instantes parado indistinto dentro da sombra, já avança alguns passos pelo corredor lateral da platéia.

O ator que interpreta o humilde lavrador vira-se para o outro, que interpreta a morte, embora sem foice ou manto (estão apenas ensaiando), e vai abrir a boca quando percebe que, em vez de olhá-lo, o diretor, sempre com a mão na coxa da assistente, cochicha algo ao seu ouvido que a faz levar a mão aos lábios para impedir que o riso transborde. Percebe o diretor, que está no centro da sala, na quinta fila, mas não o vulto que avança pelo lado, na penumbra. Irritado, o ator repete a cena idêntica à que tinha feito antes, declamando sua fala com o mesmo distanciamento que lhe parece tão apropriado, ao que o diretor enfurecido se levanta e, balançando os braços e sacudindo a cabeça, mudo, dá a entender que está péssimo.

Com a nova interrupção, o iluminador trata de retomar do início a piada que contava ao técnico, porque, a cada vez que a retoma, volta sempre ao começo com medo de que a quebra interfira no efeito cômico. Seu sussurro agora é mais corrido, tentando fazer caber a piada inteira no espaço de tempo entre a interrupção do diretor e o retorno dos atores ao palco. Nas coxias, enquanto olha o relógio (estão apenas ensaiando), o ator que faz o humilde lavrador repete baixinho ao outro, que faz a morte, que a mulher a esta altura já devia ter chegado, como tinham combinado, porque ele próprio lhe dissera que tudo terminaria às cinco, não podia imaginar que o diretor se revelasse um tamanho idiota justamente com esse texto inverossímil, e que o ensaio se arrastasse tanto.

A assistente dá o sinal mudo para que recomecem e o iluminador interrompe inconformado, mais uma vez, já quase no fim, a piada que sussurrava ao técnico no mezanino, e que corre o risco de perder a graça pela repetição. O homem que vinha avançando lentamente pelo corredor lateral agora pára à altura da quinta fila ao ver os dois atores de novo no palco. O humilde lavrador vira-se para a morte e diz: “Você é o malfeitor.” O diretor pede que parem. O tom compreensivo de sua voz é apenas um disfarce que o ator está cansado de conhecer e em geral precede uma crise de nervos. O diretor está tentando se controlar, sussurra: “Será que você não compreende? Ele perdeu a mulher, na flor da idade, está desesperado, indignado contra a injustiça da morte e dos homens e por isso a invoca, ainda acredita que pode convencê-la a lhe devolver a mulher adorada. Ninguém diz isso com distanciamento.”

Os dois saem do palco. Olhando o relógio, o humilde lavrador sussurra de novo à morte sem foice ou manto algo sobre o atraso da mulher, que a esta altura já devia estar sentada na platéia. Não entende por que ela ainda não chegou, como se já não bastasse o atraso do ensaio, graças à imbecilidade do diretor. E enquanto o humilde lavrador sussurra a sua indignação, o homem que antes era apenas um vulto já avança pela quinta fila, agora de lado, na direção do diretor e de sua assistente, que só o vêem quando já está a apenas algumas poltronas deles. Senta-se para se fazer menos notado quando a assistente já está com o braço levantado, indicando aos atores que podem recomeçar, e enquanto ele lhes revela num murmúrio o que veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, e que os petrifica, o iluminador no mezanino se aproxima num sussurro da conclusão da piada.

O humilde lavrador de relógio e a morte sem foice ou manto (estão apenas ensaiando) entram no palco. O lavrador vira-se para a morte e reinicia a sua ladainha com a mesma entonação e o distanciamento que lhe parecem mais apropriados. Mas desta vez, para sua surpresa, o diretor não o interrompe, porque tem os olhos arregalados e está lívido enquanto o homem, antes apenas um vulto, lhe sussurra algo ao ouvido. E ao ver o homem que sussurra ao ouvido do diretor, e o olhar deste e de sua assistente, que pela primeira vez não o interrompem, mas permanecem a encará-lo com os olhos aterrados e arregalados (a assistente com os olhos cheios de lágrimas diante da súplica que o lavrador faz à morte) enquanto escutam o que o outro lhes diz ao ouvido, curvado na poltrona ao lado, embora a entonação no palco tenha sido a mesma e devesse portanto, pela lógica, ser mais uma vez interrompida, o próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada.

 

 

A estrutura do conto parece uma cena de teatro, por várias vezes o autor reforça a idéia de que estão apenas ensaiando, e quando se revela o suspense da narrativa temos um flagrante de que a vida imita a arte, ou a arte imita a vida. (!?)

 





KING KONG X MONA LISA – Olga Savary

25 11 2008

A primeira coisa que dele teve foi a ameaça de sua morte. Uma ameaça através de seus guinchos, gaitadas, pios, rugidos, uivos, assobios, da algaravia por ele usada para a sedução. Era possível um ser tão esta obsessão pela morte?

Ela acha que o amou desde o primeiro momento, embora não esse amor, esse seu sim à vida ao saber-lhe a ex-futura morte, e esse se dar tanto, o se dar todo, até demais. Era possível, tão exclusivista, amar dando assim, tão selvagem, tão espontâneo, se dando a todos: um crucificar. Imaginou ser ele o mar para não sofrer. Por ser o mar de todos e assim, que outro jeito teria senão aceitar um tal requintado primitivo.

Um amor sem quase nada de particular, forte e violento, mas quase impessoal, algo de amplo, sem espaço ou tempo, como por um mito ou coisa arquetípica. Amor seria isso? Então era isso amar? Amor não era. Era é paixão. A paixão não lhe era estranha, antes velha companheira. Mas a paixão com tal violência a assustava um pouco, como antes o medo da vida, ainda que não mais agora. E a paixão era um tanto trágica. Assim a aceitava: com esforço, com dor, mas também com gozo.

Caça ou caçador, quem era? Aparentemente era ele o caçador, com tantos meneios mais a sedução, a estanha tensão de não poder passar tempo sem tocá-la. Era uma impossibilidade não tocá-la — dizia ele — saber-lhe levemente a pele, a quentura e o morno da carne pressionada para mais tarde conhecer coisas mais rudes e tensas. Era ele o caçador. Mas quem lançou senão ela o que deflagrou tudo, uma distraída provocação sensual sobre as coxas de Pelé? Nem ela soube se teria sido intencional, mas falou assim, de como eram belas as coxas de Pelé, o que o intrigou. Como tão grande timidez deixava escapar tal insolência?

Não se teria sabido o esplêndido animal que era à falta deste esplêndido animal que via agora e que, à primeira vista, a ameaçava e se ameaçava para ela com a proximidade passada de sua morte. E essa morte não vista, apenas entrevista, já passada, era a grande ameaça para que ela conhecesse sua real vida e quem ela realmente era a partir do conhecimento dessa fera.

King Kong — ela pensou —, vou chamá-lo assim, assim vou chamar a fera que me dará vida, como uma nova mãe-terra, a força animal até então desconhecida, a força primeira que, tomada nos dentes como o seu bocado primevo, a faria florescer e aceitar a vida com seus jogos, seus acertos e armadilhas. O perigo? E, era o perigo. Mas também a vida, a vida com suas espadas, seu cheiro acre e álacre, seu bafo feroz e comovente.

De uma vez que lhe dissera o nome que secretamente lhe dava, houve o espanto: mas não combina com você, que é minha Mona Lisa. Ela sorriu sem dizer nada, pensando: mas é de você que falo. Como fazê-lo entender? E era preciso? Uma fera é uma fera – e pronto. Nada de fazê-lo entender o que ele é. King Kong. Claro que era uma insolência. Só que agora fazia parte do jogo. Era tão fácil perceber. Não tinha ele só a maciez da polpa, também possuía as unhas. Mais que isso: as garras. A boca não era só um fruto do mato, toda polpa, úmida e abrangente, toda língua. Era também dentes, as presas afiadas, esplêndidas mandíbulas.

Um ser amorável essa fera, mas também de aguda crueldade e um tanto sádico, seu corpo marcado a fogo (o da paixão) como as reses que têm dono: dois K ardiam-lhe na anca. Poderia ela amar uma tal mistura de prazer e de perigo? Mas já era impossível retroceder. Seduzida pela fera, já não podia reconquistar a si mesma. Agora que sabia seu corpo através do outro. Era a guerra, a paz dos abismos e da beira do desfiladeiro dos que nascem do furor da paixão, do lamber de sua língua rubra. king Kong: o êxtase e o horror. Rodeado mandacarus, de cactos.

 

Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_-_Italo_Moriconi 





BEOWULF (Epopéia Inglesa – provavelmente ano 1000)

25 11 2008

X

HEOROT

 

 

 

A ilha de Sjælland (Zelândia) é a morada ancestral dos Dinamarqueses. Scyld Scefind é o fundador da casa real dos Dinamarqueses, conhecido como os Scyldings (dinastia de Scyld). Seu filho, Beow, sucedeu-o após sua morte. Beow, como seu pai, foi um poderoso, e um governante justo. E quando ele morreu, seu filho Healfdene subiu no trono.

Healfdene teve três filhos: Heorogar, Hrothgar e Halga. Sua filha Yrse casou-se com o rei Sueco, Onela. Hrothgar tornou-se rei após ele.

Hrothgar casou-se com Wealhtheow e tornou-se pai de dois filhos, Hrethric e Hrothmund, e de uma filha chamada Freawaru.

Hrothgar foi um jovem rei forte e valente, que conquistou gloriosas batalhas. Como seus predecessores Hrothgar foi conhecido pela sua justiça e generosidade. Hrothgar construiu um grande palácio, chamado Heorot, onde leais e valentes guerreiros, chamados thanes, que moravam e banqueteavam com ele.

(Um thane assemelha-se mais ou menos com um barão, que presta serviço militar para um senhor ou rei, que era prática normal na Anglo-Saxônia. Um thane é dependente da generosidade e grandeza de um rei.)

Em Heorot, Hrothgar e seus thanes após terminarem seus costumeiros banquetes e celebrações, permaneciam no próprio salão, onde normalmente deitavam-se para dormir.

Próximo de Heorot, havia um pântano onde uma sinistra criatura, que os dinamarqueses conheciam por Grendel, habitava no fundo deste lamaçal. Descrições de Grendel são imprecisas. Grendel pode ser tanto um gigante ou um demônio. Portanto, ele é um ogro ou troll (þroll). De qualquer forma é uma criatura humanóide, que possui braços e mãos. O poema parece indicar que Grendel é um demônio da água. Como ele aparenta ninguém sabe ao certo. O poeta informa-nos que a criatura vivia em pântanos e charcos, desde a época que o personagem bíblico Cain matou seu irmão Abel. (O poeta freqüentemente refere-se aos eventos bíblicos do Velho Testamento. Ele também algumas vezes alude aos eventos e figuras famosas dos mitos Nórdicos e Alemães.)

Enquanto todos dormiam, Grendel atacou. O demônio matou e levou trinta dos valentes thanes de Hrothgar. Grendel levou os cadáveres para sua toca no fundo do pântano. Grendel devorou a carne e bebeu o sangue de suas vítimas.

Na manhã, Hrothgar e seu povo ficaram horrorizados diante da quantidade de sangue no salão e o sumiço dos corpos dos guerreiros mortos. E o rei lamentou deveras a perda de seus leais súditos.

Hrothgar tentou juntar seus mais valentes guerreiros para derrubar e destruir a criatura, ou guardar o povo de Heorot. Mas nenhum destes serviu, Grendeu continuou a voltar ao Heorot todo noite, matando os fortes guerreiros e levando seus corpos para sua toca no lamaçal. Hrothgar combateu Grendel, mas não pode vencer o demônio.

Por doze anos o reino de Hrothgar foi atormentado pelo monstro Grendel, que atacava seus súditos, destruía as aldeias e atacava quem quer se colocasse no caminho. Grendel era uma criatura mágica, a qual nenhuma arma forjada pelo homem poderia fazer dano, tornando-o quase invencível. Só saía à noite, e muitas vezes entrava no palácio real e devorava quem encontrasse.

GRENDEL

 

As histórias das desgraças do rei Hrothgar da Dinamarca viajavam por toda a Europa, até chegarem finalmente aos ouvidos de um guerreiro, chamado Beowulf. Beowulf era um jovem thane e sobrinho do rei Hygelac. Beowulf foi o mais forte e bravo guerreiro do mundo. Ele vivia na Finlândia, chamada “A Grande Terra”, onde inclusive lhe tinham oferecido o trono do país, por suas façanhas contra os inimigos. Mas Beowulf recusava em favor do filho da rainha, que era apenas uma criança, e concordou reinar junto com ele até que tivesse idade e experiência para reinar só.

Mas ao ouvir sobre o infortúnio que se abatia na Dinamarca, Beowulf zarpou da Finlândia com destino a Dinamarca com firme propósito de libertar a terra do monstro Grendel. E assim, conquistar a glória de derrotar tão medonho demônio. Junto com ele iam quatorze dos mais valentes thanes de Hygelac.

Beowulf era filho de Ecgtheow e a irmã não nomeada de Hygelac. Do lado de seu pai, Beowulf pertencia à família conhecida como os Wægmundings, incluindo Wiglaf (que entra na história na próxima parte deste conto).

Hygelac foi o filho de Hrethel, rei dos Gotlandeses. Hygelac tinha também dois irmãos mais velhos, Herebeald e Hæthcyn. Hæthcyn acidentalmente matou Herebeald numa caçada. Hæthcyn sucedeu seu pai, mas Ongentheow, rei dos Suedos, matou-o na Batalha de Ravenswood. Então Hygelac tornou-se o rei de Gotland no sul da Suécia.

Beowulf chegou ao Heorot com seus quatorze companheiros. Eles foram recebidos por Wulfgar, mensageiro e conselheiro de Hrothgar. Beowulf entrou no salão de Heorot, vestindo sua esplendida cota-de-malha, feita pelo mestre-ferreiro Weland (Völundr). Beowulf então se dirigiu ao rei da Dinamarca.

Quando Hrothgar ouviu que o jovem herói Gotlandês procurava ajudá-lo a matar o monstro Grendel, o rei e sua esposa Wealhtheow deram calorosa boas vindas a Beowulf e seus guerreiros como convidados de honra.

Aqui, Beowulf conta a eles que ele tinha matado cinco gigantes e um monstro dos mares. Mas nem todos dinamarqueses receberam ele calorosamente. Unferth era um desses, e já tinha ouvido falar que Beowulf perderá uma disputa de natação contra Breca no mar. Beowulf não discordou de Unferth, mas disse que abandonou a disputa de natação contra seu oponente, para se envolver numa luta de vida ou morte contra o monstro dos mares.

Hrothgar contou então a Beowulf todas as desgraças que Grendel os fazia passar: campos incendiados e destruídos, colheita aniquilada, até seu castelo era presa da cólera do ser; muitos haviam desaparecido sem deixar rastro. Era provável que o mostro os levasse à sua toca para lá devorá-los. Quando Beowulf perguntou qual o aspecto do monstro, Hrothgar não teve como explicar, porque todos os que o tinham visto, estavam mortos ou desaparecidos.

Alguns acreditavam que estava coberto por uma grossa camada de pêlo negro, quase como um urso, com poderosas garras capazes de despedaçar até metal e dentes enormes, que quebravam até os ossos de suas vítimas.

Hrothgar concluiu que estava muito satisfeito com seu jovem hospede e prometeu recompensar Beowulf, se ele conseguisse matar Grendel. Beowulf sabendo que o monstro não usava armas, declarou que ele confrontaria o monstro sem o uso de sua espada.

Terminado a longa conversa entre o rei e Beowulf, todos foram dormir. Beowulf e seus companheiros, mesmo com o oferecimento do rei de alojá-los devidamente em quartos, ficaram na sala do trono, vigiando.

A noite estava alta e todos, menos Beowulf, dormiam. Era tudo tranqüilidade e silêncio. Só se escutava o vento que agitava suavemente as folhas das árvores. De repente, sem prévio aviso, o monstro Grendel entrou no salão de Heorot. Rapidamente Beowulf se levantou e quis dar aviso a seus companheiros; mas a entrada de surpresa de Grendel os tinha tomado desprevenidos, e o mais próximo ao monstro foi feito em pedaços por suas enormes e fortes garras.

Quando Grendel foi atacar sua próxima vítima, Beowulf se jogou sobre o monstro e lutou sem armas, utilizando unicamente sua força. Pela primeira vez em sua vida, Grendel era surpreendido, ele que não conhecia o medo e o sofrimento. Era de fato uma criatura muito peluda, maior que um homem, porém devido à escuridão, Beowulf não podia ver seu rosto. Lutou corpo a corpo contra a grande besta; sua força era excepcional. Mas Beowulf também era forte e, graças a isso, pôde contê-lo. Finalmente conseguiu prensar o bicho entre seus braços e, agarrando a criatura, usando todas suas forças e toda sua coragem, agarrou um dos braços do monstro Grendel e o arrancou, separando-o do corpo da grande besta.

 

Finalmente Grendel sentia o que era sofrimento, Grendel caiu ferido e lançou os mais terríveis gritos que se escutou em toda história do reino. Estava mortalmente ferido. Os companheiros de Beowulf se jogaram também sobre o monstro para aniquilá-lo, mas Grendel era imune as armas e espadas, e conseguiu se recompor e correu espavorido. Quiseram persegui-lo, mas desapareceu entre a entre a névoa e a vegetação. Estava mortalmente ferido e tinha deixado um rastro de sangue desde a sala do palácio até sua toca.

 

Em Heorot, Hrothgar e seus súditos cumprimentou Beowulf pela façanha, que ele podia provar mostrando o braço que arrancara do monstro e, o rei, certo de que o perigo havia passado, providenciou confortáveis aposentos para os guerreiros descansarem o resto da noite.

        Na manhã seguinte, o povo de Heorot celebrou a morte de Grendel. Os dinamarqueses fizeram uma grande pira funerária para o guerreiro Gotlandês, que foi morto por Grendel na noite anterior.

O bardo de Hrothgar cantou a façanha de Beowulf da noite anterior durante a celebração. O bardo comparou Beowulf com o herói Sigemund (Sigmundr das Eddas e sagas Nórdicas, e o Siegmund no Das Nibelungenlied).

O bardo também narrou, em versos cantados, a guerra entre os dinamarqueses e os frísios, que foi causada após o casamento de Hildeburh, a irmã do rei Hnæf da Dinamarca, com Finn, o rei dos frísios.

Como Hrothgar prometera, ele recompensou o jovem herói com uma esplendida armadura, um elmo entre outros presentes. Hrothgar também deu ao herói a espada que pertencera ao seu pai, Healfdene. Por dar a espada ancestral para o herói, isto indicava que Hrothgar gostaria de adotar Beowulf como um filho e faze-lo seu herdeiro, em lugar de seu próprio filho, Hrethric.

Wealhtheow estava consciente da intenção de seu esposo, auxiliando-o a dar os presentes que ele deseja a Beowulf, mas não estava de acordo com a perda do direito de um de seus filhos ao governo. Wealhtheow também deu alguns presentes a Beowulf – um colar e uma cota-de-malha. A rainha dinamarquesa também adotou Beowulf como uma espécie de filho.

O poema sugere que Hrothulf, sobrinho de Hrothgar, uma dia havia traído Hrothgar.

X

A VINGANÇA

O rei dinamarques e seus thanes pensaram que agora estavam fora de perigo, e poderiam dormir tranqüilamente no salão do palácio. Grendel podia ter morrido em sua toca, de seu ferimento

 

e perda de sangue, mas a mãe de Grendel lamentaria a perda de seu filho.

A mãe de Grendel (não nomeada), uma criatura completamente desconhecida para todos, era ainda mais cruel e perversa que seu filho (Grendel) era. À noite quando os dinamarqueses celebravam a vitória, a mãe de Grendel decidiu vingar a morte do filho.

Quando o rei e seus hospedes de honra estavam dormindo, a mãe de Grendel entrou em Heorot e agarrou um dos thanes de Hrothgar, matando-o enquanto ele dormia, fazendo um massacre na sala do trono. Além disso, pegou o braço que Beowulf tinha arrancado do filho e o levou. A criatura imediatamente retornou para sua toca, levando também a carcaça do thane consigo.       Na manhã, quando o rei Hrothgar viu o sucedido, chamou Beowulf e o levou ao local, Beowulf não estava dormindo no salão aquela noite. Quando eles souberam que um dos thanes tinha desaparecido, Hrothgar soube que a mãe de Grendel tinha matado Æschere, um leal conselheiro. Novamente eles tinham que encarar uma nova crise, mas Beowulf prometeu matar a mãe de Grendel. Assim Beowulf decidiu acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Equipado apenas com sua espada, viajou seguindo o rastro de sangue que Grendel havia deixado em sua fuga.

 

Finalmente, depois de muito caminhar, chegou à margem de um pântano. Ali terminava o rastro de sangue de Grendel, onde encontraram a cabeça decepada de Æschere, o que causou grande aflição em todos. O charco também estava infestado de serpentes. Beowulf estava usando sua cota-de-malha e empunhado a espada de Unferth; a espada era chamada Hrunting (Unferth foi o único que criticara Beowulf no dia anterior).

Sem saber exatamente até onde se tinha dirigido, Beowulf concluiu que o único caminho que poderia ter tomado sem deixar rastro era o pântano. Assim decidiu lançar-se nas águas e buscar por ali. Uma vez submerso nas águas, Beowulf descobriu uma greta nas profundidades do lago. Sendo um nadador experiente, não teve problema em seguir o caminho sob a água. Nadou através de uma gruta até finalmente emergir numa caverna subterrânea.

Justamente ali, diante dele, estava a mãe de Grendel, urrando e sustentando em seus enormes braços o corpo inerte do filho. Beowulf saiu da água e desembainhou a espada Hrunting. A mãe de Grendel, percebendo o perigo, pôs o filho no chão e se jogou sobre o intruso. Porém Hrunting era uma espada poderosa nas batalhas.

Descartando a espada, Beowulf tentou lutar com a criatura do pântano apenas com seus braços. Agarrando o monstro pelos ombros, ele arremessou a mãe de Grendel no chão. O monstro conseguiu se reerguer num salto, e tentou arremessar o herói ao chão. A criatura então desembainhou sua adaga, mas a cota-de-malha salvou a vida de Beowulf.

Beowulf viu uma outra espada no recinto. A poderosa arma tinha sido possivelmente esquecida por um gigante. O guerreiro Gotlandês apanhou a espada pelo punho, e deu um golpe na cabeça do monstro. A mãe de Grendel caiu no chão e, dando os últimos grunhidos, morreu. Com a morte da mãe de Grendel, Beowulf vingou Æschere, o thane dinamarquês.

Beowulf, vendo que finalmente os dinamarqueses poderiam gozar de paz e prosperidade, procurou pela carcaça de Grendel, não se interessou em procurar tesouros e armas que poderiam haver na cova do monstro. Ele estava apenas interessado em uma coisa, e após achar Grendel, aproximou-se e com um golpe, cortou-lhe a cabeça. Tomou-a para levar até o rei Hrothgar, como prova de sua vitória. A espada do gigante derreteu pelo sangue venenoso. Beowulf pegou de volta apenas a espada Hrunting.

O rei Hrothgar e seus súditos, após horas esperando o retorno do herói do fundo do pântano, pensaram que seu valente campeão, morrera na luta contra a mãe de Grendel, então eles retornaram tristes para Heorot. Mas os guerreiros Gotlandeses companheiros de Beowulf ficaram e esperaram o retorno de seu líder.

Beowulf retornou a superfície com a cabeça de Grendel. Os companheiros de Beowulf ficaram muito felizes por ele ainda estar vivo, e festejaram seu grande feito de ter matado a mãe de Grendel. Seus seguidores, então, carregaram a cabeça de Grendel, retornando para Heorot.

 Houve grande alegria quando Hrothgar e os thanes dinamarqueses viram que eles sobreviveram e retornavam triunfantemente com a cabeça de Grendel. O rei Hrothgar recebeu Beowulf e ofereceu um banquete. Todos os habitantes da Dinamarca acudiram para agradecer pessoalmente a Beowulf por livrá-los do mal que havia se abatido sobre eles.

Na manhã seguinte, Beowulf anunciou que precisa retornar para seu país. Hrothgar ficou triste que o jovem herói os deixaria tão breve, visto que ele amava seu hospede como se fosse seu próprio filho. Hrothgar deu então mais presentes para o herói Gotlandês. Beowulf devolveu Hrunting (a espada) que ele tomou emprestado de Unferth. Beowulf retornou para seu navio e velejou de volta para Gotland, levando consigo muitos tesouros e presentes dos dinamarqueses.

Em Gotland, Hygalec e sua esposa Hygd recebeu com boas vindas ao retorno da Dinamarca do sobrinho do rei. Então Beowulf narrou suas aventuras em Heorot, sua luta com Grendel e mais tarde com a mãe de Grendel.

X

O DRAGÃO

 

Porém ocorreu que pouco tempo depois do regresso de Beowulf, o rei Hygalec, seu tio, morreu em um combate contra os Francos na Jutlândia. Hygd, a esposa de Hygelac, tentou entregar o reino para Beowulf, pois ela acreditava que seu filho não era forte o bastante para enfrentar os ataques de seus inimigos, os Frísios e os Suedos. Beowulf recusou aceitar o reinado, e deixou o filho da rainha, Heardred, governar os Gotlandeses, enquanto o herói auxilava seu jovem sobrinho.

Entretanto, Heardred foi morto na guerra contra os Suedos, então Beowulf tornou-se rei e seu reinado alongou-se por cinqüenta anos. Ele foi conhecido por ser um rei justo e poderoso.

O poema freqüentemente volta ao passado, recontando os eventos do reinado de Hrethel (avô de Beowulf), e seus tios Hæthcyn e Hygelac, e as guerras e batalhas daqueles tempos. No entanto, do próprio reinado de Beowulf, não são dados muitos detalhes.

Um dia, um escravo encontrou o tesouro escondido do dragão, que morava numa cova, próxima do mar. O escravo roubou uma taça de ouro, enquanto o dragão dormia. Quando o dragão acordou e procurou pela taça não a encontrando, o dragão soube pelo rastro deixado, que o ladrão era humano.

Em muitos mitos germânicos, o dragão é freqüentemente alado. Portanto, no Beowulf, nós pensamos que este dragão é como as modernas representações de dragões, cuspidores de fogo e com asas fortes e poderosas.

Elevando-se com furor, o grande dragão voava através dos ares, com seu coração cheio de ódio, com o firme propósito de vingar-se dos humanos. Como Grendel, esta criatura só saia à noite de sua cova, e destruía as aldeias incendiando as casas com seus habitantes.

Beowulf já não era o jovem guerreiro que tinha matado o monstro Grendel e sua mãe. Porém ele desejou caçar e matar o dragão, como ele sempre fazia no passado, sozinho. Beowulf levou somente onze de seus thanes consigo; ele esperava somente seus companheiros para testemunhar seu encontro com o dragão. Assim buscou sua toca e a encontrou. Da única entrada saía fumaça ardente.

Valente, sem mostrar medo algum, Beowulf se pôs frente à saída e gritou seu desafio. O dragão saiu furioso de sua toca, cuspindo fogo de sua boca e nariz. Beowulf atira-se contra ele brandindo sua velha espada, mas o dragão quase o aniquila. Mesmo assim pôde se manter e dar luta ao dragão. A batalha foi tão devastadora que só um dos homens do rei Beowulf se manteve por perto; todos os demais fugiram. O único guerreiro que não fugiu era Wiglaf, um parente de Beowulf e filho de Weohstan. Wiglaf governava a cidadela de Wægmundings.

Wiglaf socorre-o, com sua espada que fora do príncipe Eanmund, que ele tinha matado. Juntos os dois heróis Gotlandeses atacaram o dragão. Mais uma vez, Beowulf acertou a cabeça do dragão com sua espada, Nægling, como tentara fazer em sua primeira investida, que apenas causara mais ódio no dragão, e desta vez sua poderosa lâmina partiu em duas.

O dragão atacou novamente, se lançou sobre ele e cravou suas presas em seu pescoço e ombros. A cota-de-malha não protege-o, e o sangue escorreu, e junto o veneno entrou em seu corpo. Com sua espada, Wiglaf enterrou a lâmina dentro da carapaça do dragão, ferindo seriamente a serpente. Beowulf ainda estava vivo, desembainhou sua faca, e matou o dragão. Tendo matado o dragão, o herói não podia permanecer de pé, pois o veneno em seu corpo, já lhe causava agonia; sua ferida era mortal.

Sem um herdeiro, Beowulf sabia que seus vizinhos inimigos atacariam o reino dos Gotlandeses, tão logo soubessem das notícias sua morte. Beowulf falou ao seu leal companheiro, para pegar o tesouro do dragão, então ele poderia ver o que ele tinha conquistado, antes de morrer. Wiglaf obedeceu o último desejo de seu líder.

Após ver o tesouro, Beowulf deu o colar de ouro para Wiglaf, que provavelmente significava que o jovem guerreiro, deveria ser seu sucessor. Então a mais poderosa alma de Beowulf, deixou seu corpo.

Wiglaf lamentou por seu amado príncipe e parente. Wiglaf estava também furioso com os outros dez guerreiros que tinham desertado por covardia. Wiglaf ordenou um deles para levar as notícias para o palácio, da morte de seu rei.

O mensageiro levou as tristes notícias aos Gotlandeses e uma predição dos problemas que viriam contra seus inimigos Suedos e Frísios, agora eles não tinham uma liderança forte.

Beowulf teve uma grande pira funerária, na borda do mar, e o lugar foi chamado Whaleness. Eles puxaram o corpo do dragão, e arremessaram do precipício dentro do mar. E o esconderijo do dragão foi fechado para nunca mais ser usado novamente.





O BÚFALO – Clarice Lispector

24 11 2008

bufalo1

§1 Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. Loj, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.

§2 Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar. Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”

§3 “Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.

§4 A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh Deus, quem será meu par neste mundo?”

§5 Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa. E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.

 

§6 Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.

§7 E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.

§8 Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido. Só isso? Só isto. Da violência, só isto.

§9 Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.

§10 A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.

§11 Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.

§12 Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.

§13 Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.

§14 Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.

§15 A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.

§16 E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido. A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.

§17 E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.

§18 Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos. O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.

§19 O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera. E de onde olhou de novo o búfalo.

§20 O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.

§21 Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.

§22 Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.

§23 Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.

§24 O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.

§25 Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.

§26 Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.

§27 Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.

§28 E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.

Clarice Lispector, In “Laços de família” – Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998