Fogo Morto

Autor: José Lins do Rego

 

SINOPSE: ‘Fogo Morto’ (1943) é o décimo romance de José Lins do Rego e foi considerado pela crítica desde o princípio como uma obra-prima. O texto gira em torno de três personagens – José Amaro, Luís César de Holanda Chacon e o capitão Vitorino Carneiro da Cunha (maior personagem não só do livro, como de toda a obra de Lins do Rego). É um romance essencialmente triste e com uma presença forte de loucura (uma das obsessões do autor, asim como morte e sexo. A história se desenrola em torno do engenho de Santa Fé. 

 

 

ANÁLISE DA OBRA por Marli Savelli de Campos

 

Fogo Morto é a obra de José Lins do Rego. O romance não conta apenas uma estória, mas diversas. Assim o livro divide-se em três partes, cada uma delas centradas em um protagonista: o “Mestre José Amaro”, “O Engenho de Seu Lula” e “O Capitão Vitorino”. Todas as partes narradas se direcionam para mostrar a decadência do engenho e o que acontece com seus habitantes.

 

 

PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS

 

 

          Na primeira  parte domina a figura do seleiro de profissão José Amaro_ velho frustrado, orgulhoso e patriarcal. “Sou da minha casa, da minha família, trabalho para quem quiser, não sou cabra de bagaceira de ninguém”(p11).  Morador revoltado do engenho de Santa Fé, homem de trato duro, áspero. Descarrega uma carga de rancor contra aqueles que o rodeiam, principalmente à sua filha Marta e sua esposa Sinhá.“ Voltava outra vez a sua mágoa latente: o filho que lhe não viera, a filha que era uma manteiga derretida. Sinhá sua mulher, era a culpada de tudo” (p10).

 

          No decorrer do romance, vários fatos ocorrem que lhe são a causa de sua total decadência:

 

v      Sua filha enlouquece e é internada. “ O mestre José Amaro não quis ver a saída de sua filha. Emocionado, entrou em casa e o soluço da mulher cortou-lhe o coração… não podia ver aquilo. Lá embaixo escutou os gritos da filha.”( p118);

 

v      Sua esposa que não o tolera mais, acaba fugindo. “A mulher o abandonara” (p.240).  

 

v      Devido a uma intriga com o negro Floripes, é expulso de sua casa no engenho de Santa Fé, onde viveu toda sua vida, desde os tempos em que o Capitão Tomás era o proprietário. “Há uma semana que tinha sido posto para fora de sua casa pelo senhor de engenho.” (p186);

 

v      O povo passa a temê-lo por causa de sua feiúra e de sua raiva enrustida e devido às andanças pela noite, ganha a fama de lobisomem.“Era um homem perdido, sem filha, sem mulher, só no mundo como se fosse um condenado. Lobisomem. Homem do demônio.”(p196)

 

v      ü      Por ajudar os cangaceiros de Antonio Silvino, é preso, apanha e é humilhado. “… Ia para cadeia como um assassino.”( p 240).

 

          Não agüentando a frustação e a solidão, enfrenta uma crise existencial e suicida-se. “O mestre estava caído perto da tenda com a faca de cortar sola enterrada no peito”(p260)

 

       

          Na segunda parte da obra ocorre um retorno histórico, há um longo flashback em que se evocam as lutas do fundador Capitão Tomás  Cabral para o estabelecimento do Engenho de Santa Fé; devido o pulso firme do trabalho do capitão, o engenho prosperava, havia muita abastância naquele lugar.

 

“E o Santa Fé, com o capitão Tomás Cabral de Melo, chegou a sua maior grandeza…  “Família criada, engenho moente e corrente, gado de primeira ordem, partidos de cana, roçado de algodão…” (p124)

 

 

          Com  a morte do capitão Tomás, seu genro Lula de Holanda_ homem calado, arrogante, impiedoso, epilético e doentimente orgulhoso, casado com Amélia, herda toda a riqueza e se torna senhor de engenho de Santa Fé. Não gostava de trabalhar para o crescimento do engenho, vivia alheio as coisas que aconteciam ao seu redor.“… o marido não parecia homem, como era a sua gente. Era alheio a vida que o cercava.”

 

          Lula era um desalmado, principalmente para com os negros, mandava castigá-los  sem nenhuma razão, porisso era visto por eles, como um monstro. “ O povo cercava os negros libertos para ouvir as histórias de torturas.” (p151). Acontece a Abolição e os negros se foram para outros engenhos, exceto o boleeiro do cabriolé_o negro Macário. “Todos se foram, todas as negras ganharam o mundo. Não havia quem quisesse ficar no Santa Fé.” (p154.

 

          Devido a falta de bravura e braço forte do homem de campo, começa a decadência de Lula e do engenho de Santa Fé_  aos poucos foi se perdendo as plantações. “… e as safras de açúcar e de algodão minguavam de ano para ano”. (p171). O engenho entra em rápido declínio_ “Eram umas três vacas, uns dez bois de carro, uns poucos novilhos. Era tudo que o coronel tinha de criação”(p28).  Santa Fé pára de produzir_transforma-se em fogo morto. “Capitão, não bota mais, está de fogo morto.” (p.403)

 

          Toda essa escala de decadência é acompanhada por uma filha solteirona e melancólica, por sua mulher Amélia e uma cunhada louca. O senhor de engenho busca refúgio e consolo na religião _ em Deus.

 

“Lula é como se não soubesse das dificuldades por que passavam… naquela devoção, no seu rezar, era como um homem de outro mundo, fora de tudo que fosse terra, indiferente ao seu tempo.”(p.176)

 

           A terceira parte concentra-se nas aventuras do Capitão Vitorino_ um personagem que vive momentos sublimes, de grande valentia, como também momentos ridículos. No início ele era visto apenas como motivo de zombaria_ riam dele, ninguém o levava a sério. Por várias vezes é abordado por pessoas que tem prazer em xingá-lo, provocá-lo.“Os meninos gritavam para ele  aquele “Papa_Rabo,,,”(p 203).  Ele falava mal de tudo e de todos, quando tinha implicância com alguém, puxava para briga, dizia desaforos. É movido pelo desejo de justiça e igualdade. Era contra o governo, não media as conseqüências em desafiar as autoridades, ocasionando muitas vezes em sua prisão.

 

“Amarre este velho e vamos com ele para cadeia de Pilar. A tropa saiu com o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha todo amarrado de corda, montado na burra velha…”(p203)

 

          Não tinha medo de nada, estava sempre prestes a desafiar o poder e a injustiça, enfrentava até mesmo o cangaceiro Antônio Silvino. Para ele, o homem mais valente do mundo era ele próprio. Falava o que pensava e sonhava com o dia em que governasse.

 

 “Todos se espantavam da coragem, do jeitão atrevido do velho Vitorino. Era homem que ninguém dava nada por ele e não tinha medo de coisa alguma.”(p 207).

 

  “A vila do Pilar teria calçamento, cemitério novo, jardim… Todos pagariam impostos… Sou o prefeito Vitorino que estou aqui para cumprir a lei.” (pág.398)       

         

Contudo, no final do romance, Vitorino é apresentado como verdadeiro herói. Gradativamente passa a ser reconhecido pelos que o cercam. “…pela primeira vez em sua vida, ela via a grandeza de Vitorino…”(p.252). Se torna o elo de ligação entre os ricos e os pobres, fracos e fortes. “À sua casa vinham os grandes e os pequenos da terra.”(p255).  É um homem bom, que emprega toda a sua valentia em prol do próximo. “…Seu Vitorino que só tinha palavras na boca, que era tão bom para os outros…(p252).

 

           Por ser um sonhador, não percebia que vinha de uma família tão rica e que estava acabando na pobreza.

 

“Vitorino não tinha consciência para sofrer. Não sofria, não era capaz de sentir que tudo se acabara, que eles em breve veria o fim da família que fora tão grande e tão cheia de riqueza.” (p 218)

 

 

          Nesta terceira faz menção também do Capitão Antonio Silvino que se apresenta como a força da subversão_ o poder de uma justiça ilegal, porém legítima. Tira dos ricos para dar aos pobres.

 

“ O capitão Antônio Silvino… protegendo os pobres, tomando dos ricos” (p59) “…mandou sacudir os dois caixões de níqueis no meio da rua. O povo caiu em cima daquelas moedas… o povo tirara o pé da lama.”(p186).

 

 

 

RELAÇÃO DOS PERSONAGENS COM A SOCIEDADE

 

 

          Partindo da análise feita dos personagens principais da obra, podemos observar a relação que cada um tem com a sociedade e as denúncias que trazem consigo.

 

          A família da Casa Grande do Engenho Santa Fé é o estereótipo da família patriarcal, com valores tradicionais e católicos arraigados.

 

         O Mestre José Amaro, representa o povo ordeiro, trabalhador e esquecido do Nordeste, que percebendo a exploração, alia-se a Antonio Silvino.

 

         O Coronel Lula de Holanda, representa a aristrocacia arruinada dos engenhos, simbolizando a recusa do progresso, enquanto que o Vitorino Carneiro da Cunha, representa o herói do povo.

 

 

BINÔMIO:  ILUSÃO  x  REALIDADE

 

 

          Pode-se considerar Lula de Holanda como sendo um dos personagens mais alienado de toda obra. Ele tenta de uma maneira desesperada manter a imponência que um dia tivera o Santa Fé e sua família. O autor deixa claro o contraste da vida e da realidade que este personagem vive. Aparentando algo totalmente oposto a realidade que estava vivendo.

 

“Seu Lula, porém, não devia, não tomava emprestado. Todas as aparências do senhor de engenho eram mantidas com dignidade… tudo era como se fosse uma imitação da realidade.”(p171).

 

          Essa tentativa de se manter como família tradicional e de grande riqueza é mostrada além do constante uso do cabriolé, pelas jóias que as mulheres do Santa Fé tem que ostentar.

“Eram os mesmos. Neném e ela traziam as mesmas jóias, aqueles trancelins, aqueles anéis que lhe tomavam os dedos das mãos. Lula não deixava que saíssem de casa sem as jóias.”(p178).

 

          Mantinha a pose de um senhor possuidor de muitas riquezas enquanto na verdade estava se definhando, sobrevivendo das migalhas que ainda restava da herança que recebera de seu sogro.

“Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços. A nova parelha da cabriolé não aparentava aquela beleza de antigamente.”(p.163).

 

“Amélia, tenho ainda umas moedas, heim? Vai à Paraiba e troca isto com o Mendes.” (p.224) .

 

          Preferiu viver de ilusões à encarar a realidade, se alimentando do amor ao passado, recordando de uma felicidade antiga. Torna-se um verdadeiro devoto, encontrando consolo na religião. “Quando toca as aves-marias, dão para rezar. Reza todo mundo da casa…”(p.32)

 

 

POSIÇÃO DO NARRADOR

 

 

          O romance é escrito em terceira pessoa; é predominante o discurso indireto livre; o autor procura escrever como se fala, baseando-se na linguagem do cotidiano, revestindo-se de oralidade espontânea resultando na impressão de vivacidade e dinamismo. Seu ritmo sintático e narrativo é nervoso, quase frenético, imitando o vaivém das pessoas pelas estradas do engenho.

 

          O narrador obedece uma ordem cronológica (primeira, segunda e terceira, partes). Sendo que o flashback ( segunda parte) serve para situar os personagens na história, retomando os temas do princípio, na terceira parte.

 

 

 

ASPECTO MEMORIALISTA

 

 

          Em Fogo Morto, o autor soube transformar em ficção a vida real dos engenhos nordestinos. Trata-se de uma sociedade decadente, marcada pelo ressentimento, pelo desajuste e pela revolta.

 

          O autor escreve em tom memorialístico, como se fizesse uma crônica sobre o que vivenciou em sua experiência com a realidade do povo da Paraíba _ sua terra natal. Retoma o espírito de observação realista produzindo um minucioso levantamento da vida social e psicológica dos engenhos da Paraíba.

 

          O estilo da obra é modernista, baseia-se na linguagem do cotidiano, da oralidade espontânea. Pertence ao regionalismo Nordestino porque aborda a paisagem específica dessa região mas as questões abordadas transcendem os limites regionais, o que é comum nas obras bem realizadas.

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

 

REGO, José Lins do. Fogo Morto. 26.ed.Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1983.

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