“Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos”
Fernando Pessoa
Parabéns, Fernando Pessoa!… 123 aninhos… Viva!
Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935
ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
{Álvaro de Campos, Poemas}
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos, em 30 de novembro de 1935: “A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto. [...]“
Cartas “DE” e PARA” Fernando Pessoa
Ao Natal MercuryDurban, 7th. July, 1905 “The Man in the Moon”
A Álvaro Pinto, 25 de Abril de 1912
À Álvaro Pinto, 30 de Abril de 1912
À Álvaro Pinto, 1º de Maio de 1912
À Álvaro Pinto, 2 de Maio de 1912
Museu-Biblioteca Castro de Guimarães em Cascais
Carta a Adolfo Casais Monteiro
Carta à memória de Fernando Pessoa, Julho de 1936
Fonte: A Casa do Bruxo
A Biblioteca Nacional portuguesa está colocando na web os escritos autógrafos de Pessoa. Já estão disponíveis, desde fevereiro/2006, imagens fac-similares dos poemas de Alberto Caeiro, o primeiro heterônimo, e — segundo Pessoa — o mestre dos outros e dele mesmo.
heterônimo Alberto Caeiro
O GUARDADOR DE REBANHOS
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
fac-simile de página do caderno manuscrito de «O Guardador de Rebanhos» © Biblioteca Nacional.
Ocupa a posição 60ª dos Os 100 Melhores Poemas Internacionais do Século XX
Paai Rengel e outros dous romeus -Afonso Eanes de Coton
Paga ou Morre! -Artur Azevedo
Página azul -Auta de Souza
Página triste -Auta de Souza
Páginas Críticas e Comemorativas -Machado de Assis
Páginas Recolhidas -Machado de Assis
Páginas Recolhidas -Machado de Assis
Pai Contra Mãe -Machado de Assis
Paisagens brasileiras -Visconde de Taunay
Palavras a alguém -Casimiro de Abreu
Palavras no mar -Casimiro de Abreu
Palavras Tristes -Auta de Souza
Pan-americano -Artur Azevedo
Panóplias -Olavo Bilac
Panóplias -Olavo Bilac
Papéis Avulsos -Machado de Assis
Papéis Avulsos -Machado de Assis
Papéis Velhos -Machado de Assis
Para além da curva da estrada -Alberto Caeiro
Para defender a pátria -Frei Caneca
Para não dizer, que não falei em flores -Marco Ramos
Paranóia delirante -Roberto Wagner Magalhães
Parecer de Concurso Literário -Emílio de Menezes
Pareceres de Machado de Assis -Machado de Assis
Passa uma borboleta por diante de mim -Alberto Caeiro
Passei toda a noite -Alberto Caeiro
Passou a diligência pela estrada, e foi-se -Alberto Caeiro
Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas -Alberto Caeiro
Patkull -Antônio Gonçalves Dias
Patriota? Não: só português -Alberto Caeiro
Paulino e Roberto -Artur Azevedo
PAULO -Bruno Seabra
Pedro Gobá -José Ezequiel Freire
Pedro Gobá -José Ezequiel Freire
Pegadas urbanas: Novo Hamburgo como palco do flâneur -Jeferson Francisco Selbach
Pelo passado -Auta de Souza
Pennas de Garça -Auta de Souza
Pensar em Deus é desobedecer a Deus -Alberto Caeiro
Pepita -Casimiro de Abreu
Pequetita -Artur Azevedo
Pera veer meu amigo -Dom Dinis
Perdão! -Casimiro de Abreu
Perfumes e amor -Casimiro de Abreu
Pero eu dizer quisesse -Dom Dinis
Pero que eu mui long’ estou -Dom Dinis
Peru versus Bolívia -Euclides da Cunha
Peru versus Bolívia -Euclides da Cunha
Peru versus Bolívia -Euclides da Cunha
Pesar mi fez meu amigo -Dom Dinis
Pesquisa sem frescura -Jeferson Francisco Selbach
Pétala dobrada para trás da rosa -Alberto Caeiro
Piedade Filial -Artur Azevedo
Pílades e Orestes -Machado de Assis
Pobre Cardeal! -Machado de Assis
Pobre Finoca -Machado de Assis
Pobre flor! -Auta de Souza
Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares -Alberto Caeiro
Pobres Liberais! -Artur Azevedo
Poema da mocidades seguido de Anjo do lar -M. Pinheiro Chagas
Poema da Virgem -Pe. José de Anchieta
Poema dos Feitos de Mem de Sá -Pe. José de Anchieta
Poemas -Alphonsus de Guimarães
Poemas -Alphonsus de Guimarães
Poemas -Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio)
Poemas -Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio)
Poemas da Morte -Emílio de Menezes
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
Poemas de Fagundes Varela -Luís Nicolau Fagundes Varela
Poemas de Fernando Pessoa -Fernando Pessoa
Poemas de Raul de Leoni -Raul de Leoni
Poemas de Ricardo Reis -Fernando Pessoa
Poemas de Ricardo Reis -Fernando Pessoa
Poemas em Inglês -Fernando Pessoa
Poemas Escolhidos -Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio)
Poemas Humorísticos e Irônicos -João da Cruz e Sousa
Poemas Inconjuntos -Fernando Pessoa
Poemas Irônicos, Venenosos e Sarcásticos -Alvarez Azevedo
Poemas Irônicos, Venenosos e Sarcásticos -Manuel Antônio Álvares de Azevedo
Poemas -Luís Nicolau Fagundes Varela
Poemas Malditos -Alvarez Azevedo
Poemas Malditos -Manuel Antônio Álvares de Azevedo
Poemas -Safo
Poemas Selecionados -Florbela Espanca
Poemas Traduzidos -Fernando Pessoa
Poesia e amor -Casimiro de Abreu
Poesia Litigiosa -Antônio Frederico de Castro Alves
Poesia Satírica e Versos de Circunstância -Emílio de Menezes
Poesias Colegiais -Antônio Frederico de Castro Alves
Poesias Coligidas -Antônio Frederico de Castro Alves
Poesias Coligidas -Antônio Frederico de Castro Alves
Poesias Completas -Laurindo José da Silva Rabelo
Poesias dispersas -Machado de Assis
Poesias Escolhidas -José Cândido de Lacerda Coutinho
Poesias -Francisca Julia da Silva
Poesias Inéditas -Fernando Pessoa
Poesias -Júlio Dinis
Poesias -Luis Delfino dos Santos
Poesias -Manuel Maria de Barbosa du Bocage
Poesias Manuscritas -Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio)
Poetas devem jogar poemas no lixo -Nelson Lima
Pois ante vós estou aqui -Dom Dinis
Pois mia ventura tal é ja -Dom Dinis
Pois não é?! -Casimiro de Abreu
Pois que diz meu amigo -Dom Dinis
Pois que vos Deus fez, mia senhor -Dom Dinis
Pois que vos Deus, amigo, quer guisar -Dom Dinis
Polêmicas e reflexões -Machado de Assis
Pombos mensageiros -Auta de Souza
Ponto de Vista -Machado de Assis
Ponto de Vista -Machado de Assis
Por Deus, amiga, pês-vos do gram mal -Dom Dinis
Por Deus, amigo, quen cuidaría -Dom Dinis
Por Deus, punhade de veerdes meu -Dom Dinis
Porca elegia -Salomão Rovedo
Possível e Impossível -Machado de Assis
Pouco a pouco o campo se alarga e se doura -Alberto Caeiro
Pouco me importa -Alberto Caeiro
Poverina -Artur Azevedo
Praz-m’ a mi, senhor, de morrer -Dom Dinis
Preguntar-vos quero por Deus -Dom Dinis
Primas de Sapucaia -Machado de Assis
Primaveras -Casimiro de Abreu
Primeiras Trovas Burlescas -Luiz Gonzaga Pinto da Gama
Primeiro Fausto -Fernando Pessoa
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã -Alberto Caeiro
Primeiros Cantos -Antônio Gonçalves Dias
Primeiros Cantos -Antônio Gonçalves Dias
Produções Satíricas e Bocageanas de Bernardo de Guimarães -Bernardo Guimarães
Proençaes soen mui ben trobar -Dom Dinis
Profissão de fé -Olavo Bilac
Prólogos Interessantíssimos -Vários Autores
Prosa de Circunstância -Emílio de Menezes
Prosas Bárbaras -José Maria Eça de Queirós
Prosopopéia -Bento Teixeira
Prosopopéia -Bento Teixeira
Prosopopéia -Bento Teixeira
Prosopopéia -Bento Teixeira
Prosopopéia -Bento Teixeira
Puelina -Artur Azevedo
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Palavras do Leitor