VELHA HISTÓRIA – Mário Quintana

16 08 2012

Um dia ao pescar na beira de um rio um homem pega um peixe. A partir de um gesto de afeto do pescador, os dois desenvolvem uma linda amizade que é admirada por todos na cidade. Do poema de Mário Quintana. Narrado por Marco Nanini.

Disponível originalmente em: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1893#





O ÚLTIMO POEMA – Mario Quintana

10 05 2012

Enquanto me davam a extrema-unção,
Eu estava distraído…
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre n’outra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
- segredo da poesia –
E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros sapatos
Que continuavam andando, que continuavam andando,
Até hoje
Pelos caminhos deste mundo.

Mario Quintana





DOS LIVROS – Mario Quintana

3 08 2011

Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria,
Se a teu amigo tu não sabes ler?

Mário Quintana





INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA – Mário Quintana

13 06 2011

A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…

Mário Quintana





A CARTA – Mario Quintana

15 05 2011

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria…
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas…
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!

Mário Quintana





Sumário

3 05 2011

SUMÁRIO

Escrevestes cartas para quem não sabia ler
- retrato invisível -
Eu te vejo até de olhos fechados

Marli Savelli

Dedico para Seu Mário Quintana,
poeta que admiro pelo belo trabalho desenvolvido no seu caminho poético.

 

O não reconhecimento da ABL em relação ao poeta Mário Quintana não interferiu na admiração que o público brasileiro tem por ele. Como dizia Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra”, mas… “Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão… Eu passarinho/ (Poeminha do Contra – Mário Quintana)

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Sumário significa: resumo, simples, breve. Este poema, Retrato no Livro , publicado no http://aquarioliterario.wordpress.com/, complementa a idéia do poeminha.





Mário Quintana

3 05 2011

Mário de Miranda Quintana (Alegrete, 30 de julho de 1906Porto Alegre, 5 de maio de 1994)

Quintana foi poeta, tradutor e jornalista brasileiro, tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma das ocasiões foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Ao ser convidado a candidatar-se uma quarta vez, e mesmo com a promessa de unanimidade em torno de seu nome, o poeta recusou.[7]

Mario Quintana já advertia: “um engano em bronze é um engano eterno“. “Quintana não é poeta regional, pois sua poesia não é localista. Também ainda não é nacional por não ter uma recepção uniforme no país. Prefiro dizer que Quintana é um poeta universal porque sua poesia fala a todos, e expressa a condição humana, explorando a reflexão sobre a vida e sobre a morte”, afirma Tania Franco Carvalhal 

Cquote1.svgEscrevestes cartas para quem não sabia ler
- retrato invisível -
Eu te vejo até de olhos fechados

Marli Savelli  Cquote2.svg

Cquote1.svg Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro. Cquote2.svg

Mário Quintana
Cquote1.svg Se Mário Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida ou sua obra. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia. Cquote2.svg

Cquote1.svg Não ter sido um dos imortais da Academia Brasileira de Letras é algo que até mesmo revolta a maioria dos fãs do grande escritor, a meu ver, títulos são apenas títulos, e acredito que o maior de todos os reconhecimentos ele recebeu: o carinho e o amor do povo brasileiro por sua poesia e pelo grande poeta e ser humano que ele foi… Cquote2.svg

Monumento a Mário Quintana (dir) e Carlos Drummond de Andrade, na Praça da Alfândega de Porto Alegre, obra de Francisco Stockinger.

 Obras Poéticas

  • A Rua dos Cataventos- Porto Alegre, Editora do Globo, 1940
  • Canções- Porto Alegre, Editora do Globo, 1946
  • Sapato Florido- Porto Alegre, Editora do Globo, 1948
  • O Aprendiz de Feiticeiro- Porto Alegre, Editora Fronteira, 1950
  • Espelho Mágico- Porto Alegre, Editora do Globo, 1951
  • Inéditos e Esparsos- Alegrete, Cadernos do Extremo Sul, 1953
  • Poesias- Porto Alegre, Editora do Globo, 1962
  • Caderno H- Porto Alegre, Editora do Globo, 1973
  • Apontamentos de História Sobrenatural- Porto Alegre, Editora do Globo / Instituto Estadual do Livro, 1976
  • Quintanares- Porto Alegre, Editora do Globo, 1976
  • A Vaca e o Hipogrifo- Porto Alegre, Garatuja, 1977
  • Esconderijos do Tempo- Porto Alegre, L&PM, 1980
  • Baú de Espantos- Porto Alegre – Editora do Globo, 1986
  • Preparativos de Viagem- Rio de Janeiro – Editora Globo, 1987
  • Da Preguiça como Método de Trabalho- Rio de Janeiro, Editora Globo, 1987
  • Porta Giratória- São Paulo, Editora Globo, 1988
  • A Cor do Invisível- São Paulo, Editora Globo, 1989
  • Velório Sem Defunto- Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990
  • Água – Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2001

Livros Infantis

  • O Batalhão das Letras- Porto Alegre, Editora do Globo, 1948
  • Pé de Pilão- Petrópolis, Editora Vozes, 1968
  • Lili inventa o Mundo- Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983
  • Nariz de Vidro- São Paulo, Editora Moderna, 1984
  • O Sapo Amarelo- Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984
  • Sapato Furado – São Paulo, FTD Editora, 1994

Antologias

  • Nova Antologia Poética- Rio de Janeiro, Ed. do Autor, 1966
  • Prosa & Verso- Porto Alegre, Editora do Globo, 1978
  • Chew me up Slowly(Caderno H) – Porto Alegre, Editora do Globo / Riocell, 1978
  • Na Volta da Esquina- Porto Alegre, L&PM, 1979
  • Objetos Perdidos y Otros Poemas- Buenos Aires, Calicanto, 1979
  • Nova Antologia Poética- Rio de Janeiro, Codecri, 1981
  • Literatura Comentada- Editora Abril, Seleção e Organização Regina Zilberman, 1982
  • Os Melhores Poemas de Mário Quintana(seleção e introdução de Fausto Cunha)- São Paulo, Editora Global, 1983
  • Primavera Cruza o Rio- Porto Alegre, Editora do Globo, 1985
  • 80 anos de Poesia- São Paulo, Editora Globo, 1986
  • Trinta Poemas- Porto Alegre, Coordenação do Livro e Literatura da SMC, 1990
  • Ora Bolas- Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994
  • Antologia Poética- Porto Alegre, L&PM, 1997
  • Mario Quintana, Poesia Completa – Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2005 

 Traduções

Dentre os diversos livros que traduziu para a Livraria do Globo (Porto Alegre) estão alguns volumes do Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (talvez seu trabalho de tradução mais reconhecido até hoje), Honoré de Balzac, Voltaire, Virginia Woolf, Graham Greene, Giovanni Papini e Charles Morgan. Além disso, estima-se que Quintana tenha traduzido um sem-número de histórias românticas e contos policiais, sem receber créditos por isso – uma prática comum à época em que atuou na Globo, de 1934 a 1955.

 Homenagens

O Manuel Bandeira dedicou-lhe um poema, onde se lê:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

O pajador Jayme Caetano Braun, dedicou ao poeta a Payada a Mario Quintana, segue abaixo um trecho da poesia:

Entre os bem-aventurados
Dos quais fala o evangelho,
Eu vejo no mundo velho
Os poetas predestinados,
Eles que foram tocados
Pela graça soberana,
Mas a verdade pampeana
Desta minh’alma irrequieta,
É que poeta nasce poeta
E poeta é o Mario Quintana!

Em Pelotas, há uma escola que recebera o mesmo nome do poeta em sua homenagem.

Prêmio Jabuti

Em 1981 recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano.

 

Fonte: Wikipedia





O MAPA – Mario Quintana

3 05 2011
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
 
(É nem que fosse o meu corpo!)
 
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
 
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
 
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
 
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
 
E talvez de meu repouso…
 
Mário Quintana
 




DO AMOROSO ESQUECIMENTO – Mario Quintana

3 05 2011
Eu, agora – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
 
Mário Quintana
 
 
 




SURREALISMO

11 04 2011

SURREALISMO

O que é enfim o surrealismo? Não é um código, uma invenção, nem uma religião e, muito menos, uma escola, ou doutrina (em sentido estrito). Segundo o ensaio sobre o assunto, de Octavio Paz, o surrealismo é “um movimento marcado pelo século e que, simultaneamente, marcou o século” (apud Ponge, 1999, p. 163). Surgiu em 1924, em Paris, através da publicação do Manifesto do surrealismo, de André Breton (1924), que lançou um grito de revolta, de liberdade, exaltando o maravilhoso e a imaginação, conclamando à prática da poesia e à mudança de vida. O surrealismo é a resposta dada por artistas, segundo formas e modos particulares, a um certo estado social. É o encontro do que é efêmero no mundo e dos valores eternos: amor, liberdade e poesia. É a ‘crise do espírito em movimento’, a recusa de todos os caminhos, projetos e maneiras de proceder conhecidos até então. O surrealismo, como verdadeira atividade, existiu principalmente na Bélgica e em Paris. Contudo, houve produções individuais ou ações coletivas esporádicas em outros lugares, muitas vezes até mais autênticas do que nos primeiros onde surgiu.

O objetivo dos surrealistas é liberar o homem das restrições de uma sociedade utilitária. Para tirá-lo de sua acomodação, é necessário “insistir sobre tudo quanto podia mudar seu rumo”, menosprezar “a inteligência e reencontrar as forças vitais do ser para que suas tumultuosas marés o erguessem até um horizonte mais amplo” (Duplessis, 1956, p.7). Os surrealistas não se isolam em torres de marfim; antes desejam destruí-las, para que “as vítimas da realidade não procurem fugir-lhe, mas, pelo contrário, procurem torná-la conforme as suas aspirações”. E assim como o surrealismo se opõe à arte pela arte, também rejeita a ideologia da revolta pela revolta, “de forma que os que o vêem apenas sob um ou outro desses aspectos, desconhecem o seu mais autêntico fim” (Duplessis, 1956, p. 9).

Para conseguir isso, utilizam-se da intuição poética, que é o modo como o homem reconhece tudo o que o cerca, usando o pouco que sabe de si próprio. Através da intuição, sem limites no surrealismo, são assimiladas e criadas novas formas, com condições de abarcar todas as estruturas do mundo. Conduzido pela criatividade, o homem emerge à superfície de si próprio, enriquecendo sua personalidade com as descobertas realizadas no mergulho. A poesia surrealista tem por objetivo subverter a norma estabelecida, indagar a sociedade e a linguagem, enfim, deseja posicionar-se contra a imitação da vida, procurando buscar a vida de verdade. Procura ser a voz, o grito solitário do indivíduo no meio da massa, da sociedade.

O surrealismo não é a recusa da realidade, ou uma visão negativa da vida, mas a superação dessa realidade redutora, pois não só revela ao homem possibilidades desconhecidas, como lhe fornece meios para realizá-las. Aspira a “mais realidade”, como afirma Claude Courtot:

Tudo leva a crer que existe um certo ponto do espírito onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, deixam de ser percebidos contraditoriamente. Ora, em vão procurar-se-ia na atividade surrealista um fim outro que a esperança de determinar esse ponto. (apud Ponge, 1999, p. 43)

O movimento surrealista extingue-se oficialmente, como atividade de grupo, em 1969, na publicação de um texto de Jean Schuster (1969), ‘O quarto canto’, no jornal Le Monde. É o marco do limite histórico do surrealismo, não das aspirações que o criaram.

As principais características, isto é, as técnicas que marcaram o movimento surrealista são:

a) O humor

O poeta separa-se da vida para contemplá-la como espectador. Vê diante de si fantoches que se agitam, bastando ver os cordões para perceber a gravidade ilusória de seu comportamento. A realidade perde, assim, seu aspecto sério e torna-se um objeto de críticas. O humor permite, portanto, ver o mundo sob um outro ponto de vista, quebrando as relações familiares dos objetos, os aspectos comuns da vida, as mesquinharias e absurdos onde se desenrola a existência. Antes de traçar um novo caminho, é preciso destruir o que já existe e o riso é ainda a melhor arma para sacudir a hipocrisia. Vence então o espírito pelo inesperado, tirando-o de sua acomodação, e prepara-o assim para visualizar uma outra realidade – a supra-realidade. Pela crítica realizada sobre as relações lógicas e normais das palavras e objetos, o humor os joga num outro mundo, pondo em xeque a própria identidade e fazendo o espírito retornar ao caos inicial, por “imprevistos choques de imagens”. Segundo Duplessis, o humor é,

“na sua essência, uma crítica intuitiva e implícita ao mecanismo convencional da mente, uma força que origina um fato ou um conjunto de fatos daquilo que é dado como seu normal, para precipitá-los num jogo vertiginoso de relações inesperadas e supra-reais. Através de uma mistura do real e do fantástico, fora de todos os limites do realismo cotidiano e da lógica racional, o humor, apenas o humor, dá àqueles que o rodeiam uma novidade grotesca, um aspecto alucinatório da inexistência… e uma importância irrisória, ao lado de um supra-senso excepcional e efêmero, mas total… Ele dá uma reviravolta em nossos hábitos pelo expatriamento, pela surpresa, por aproximações inesperadas, liberta o espírito e fá-lo tomar seu impulso.” (1956, p. 27)

É a razão e a lógica inclinadas diante da imaginação, abrindo-se assim um rico leque de imagens e fantasia. Os surrealistas ultrapassam o mundo utilitário, conduzindo-se então ao mundo do maravilhoso e da magia.

b) O maravilhoso

Além da realidade existem outras relações que o espírito pode apreender, tão primárias, como a ilusão, o maravilhoso e o sonho. Estas outras “realidades” encontram-se reunidas na supra-realidade. Afastando-se do mundo real, os surrealistas procuram penetrar naquele outro universo onde há fantasmas, entidades e aparições, pois, como afirma Louis Aragon, “a mais profunda emoção do ser tem todas as possibilidades de se expressar apenas com a aproximação do fantástico, no ponto onde a razão humana perde seu controle”. (Louis Aragon apud Duplessis, 1956, p. 34).

A supra-realidade surge sempre que a criatividade surge livremente, sem as restrições do espírito crítico, das condições impostas pela mentalidade da sociedade. Segundo Pierre-Albert Birot, “o maravilhoso, cada vez mais livre de entraves, toma o caráter de surpreendente realidade em si, de Surrealismo… O maravilhoso realiza o milagre de se confundir com o comum e o cotidiano da maneira mais natural do mundo”. (Pierre-Albert Birot apud Duplessis, 1956, p. 35).

O sonho, a loucura, temas que ridicularizados por artistas com obras ditas “engajadas”, são assuntos fazem parte de uma idealização que não deseja ver o homem apenas no seu contexto sócio-político, mas como seres em busca do transcendental. Dessa forma, a valorização do sono é uma espécie de ponte para o acesso ao inconsciente e aos seus mistérios.

Para os surrealistas, o sono é, de fato, uma etapa importante da experiência, pois possibilita a entrada para a atividade onírica, para esta realidade que está além, um dos contactos mais íntimos com a vida primitiva. Segundo Duplessis, “considerar o sonho como um meio de evasão e atribuir-lhe um papel sobrenatural, em oposição à atividade, vem da insatisfação que o ser humano encontra na sociedade tal como ela é”. (1956, p. 121). É através da loucura que os seres que a sociedade rejeita (devido a sua inadaptação a ela) vivem no mundo do sonho e da fantasia e abrem novas portas para o domínio onde tudo é permitido.

As diversas técnicas surrealistas visam então afastar a visão utilitária e normatizada da sociedade para surgir o homem tal como é na sua natureza primitiva, “a fim de que possa recuperar toda sua força psíquica, e tornar-se realmente livre” (Duplessis, 1956, p. 47-48).

SURREALISMO NO BRASIL

O surrealismo surgiu no Brasil através de um grupo carioca reunido em torno da revista Estética, que desapareceu em 1925, depois do lançamento de três volumes. Seus editores foram Prudente de Moraes, neto, e Sérgio Buarque de Holanda, que defenderam o surrealismo, principalmente contra críticos como o Tristão de Athayde. Além deles, Carlos Drummond de Andrade, editor de A Revista, de 1925-1926, também demonstrou simpatia pelo surrealismo.

Porém, o expoente do surrealismo na literatura brasileira foi Murilo Mendes. Embora tenha convivido mais diretamente com o movimento, não se pode considerar o poeta como um representante brasileiro dessa mentalidade (pois não a adotou como sistema), mas que apenas incorporou alguns elementos surrealistas que mais lhe interessavam à sua poética; ou seja, como ele mesmo afirma, fez um surrealismo à moda brasileira. De acordo com o ensaio de Valentim Facioli, Mendes escreveu:

Abracei o surrealismo à moda brasileira, tomando dele o que mais me interessava: além de muitos capítulos da cartilha inconformista, a criação de uma atmosfera poética baseada na acoplagem de elementos díspares. Tratava-se de explorar o subconsciente; tratava-se de inventar um novo frisson nouveau, extraído à modernidade; tudo deveria contribuir para uma visão fantástica do homem e suas possibilidades extremas. Para isto reuniam-se poetas, pensadores, artistas empenhados em ajustar a realidade a uma dimensão diversa. (apud Ponge, 1999, p. 300)

Murilo teve contato com o surrealismo através de Ismael Nery (que foi duas vezes à Europa e manteve diálogo com vários surrealistas), que também não foi um pintor surrealista ortodoxo, mas seus quadros, muitas vezes, apresentam um realismo “além”.

Mas, Murilo Mendes não foi o único brasileiro a dialogar com o surrealismo. Por isso, há um erro crasso na historiografia literária brasileira, quando (por exemplo, Stefan Baciu (apud Ponge, 1999) afirma que não houve surrealismo no Brasil. Talvez não tenha ocorrido da mesma forma que em outros países da América, em particular, os de língua castelhana, mas ainda assim pode-se dizer que existiram manifestações surrealistas por aqui (o que acabou sendo chamado de modernismo). Facioli comenta:

Elementos de surrealismo continuaram presentes nas obras de escritores e artistas plásticos, mas diante da hostilidade do Estado e das camadas letradas industriadas para isso, houve uma espécie de passagem do público ao privado, limitando-se a manifestação surrealista às obras, mas sem manifestação pública. (Facioli apud Ponge, 1999 p. 305)

Observa-se então, no Brasil, país surrealista por natureza, segundo Jorge de Sena (apud Ponge, 1999), uma certa presença da poesia do ilógico, do irracional, independente de sua consciência ou não elaboração poética. E muitas dessas particularidades surrealistas, como o humor, o maravilhoso, o ilógico, podem ser encontradas na poética de Quintana.

QUINTANA E O SURREALISMO

Quintana publica seu primeiro livro de poesias, A Rua dos Cataventos, em 1940, depois de já ter convivido com vários movimentos artísticos surgidos no início do século XX. A tradução de autores de diversas vertentes também deve ter contribuído para a construção de sua poética. Em alguns de seus poemas pode-se notar a referência a outros escritores como Verlaine, no soneto “XXXI”: “É outono. E é Verlaine… O Velho Outono / Ou o Velho Poeta atira-me à janela / Uma das muitas folhas amarelas / De que ele é o dispersivo dono… (…) Um que de melancólico e solene / – E para todo o sempre evocativo – / Na frauta enferrujada de Verlaine…” (Quintana, 1976, p. 34) ou então a Rimbaud, precursor dos surrealistas, em “Canção de Bar”: “… E Rosa, a da vida… / E Verlaine que está / Coberto de limo. / E Rimbaud a seu lado, / O pobre menino… / (…)E caninha pura, / Da mais pura água, / Que poesia pura, / Ai seu poeta irmão, / A poesia pura / Não existe não!” (Quintana, 1976, p. 56), num misto de reverência e ironia por seus legados literários.

Qual é, enfim, a relação de Quintana com o movimento surrealista? Segundo Trevisan e Ruas (1998, p. 31), “dentre os poucos e autênticos surrealistas que o Brasil produziu, Mario Quintana, juntamente com Murilo Mendes, é o mais notável”. Para estes autores, Mario Quintana também teria feito um surrealismo à sua maneira, isto é, não aceitou o movimento surrealista como modo de viver e expor-se artisticamente, o surrealismo “em estado puro”, mas teria incorporado algumas dessas técnicas e temáticas em sua poética, como por exemplo, o humor. Este supõe dois componentes: “a fantasia em estado puro, a invenção onírica; e a denúncia, ou provocação ética, na medida em que o produto imaginativo se converte em objeção ao comportamento ‘alienado’” (Trevisan e Ruas,1998, p. 31).

Em Quintana, o que mais chama a atenção é o ‘humor-denúncia’, que investe contra o quadradismo das convenções, da vida, aquilo que se torna irônico justamente por se opor à vida. Por exemplo, observa-se esse humor na fala do Anjo Malaquias: “Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente da bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros.” (Quintana, 1976, p. 137); ou ainda no poema em prosa “Velha História”:

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no “17″! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial… Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: “Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!…” Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando… até que o peixinho morreu afogado… (Quintana, 1976, p. 105)

Observa-se que esse poema em prosa (com enredo, personagens, narratário, a expressão “era uma vez” clássica de início de narrativas orais) possui vários elementos surrealistas. Por exemplo, a presença do insólito e do maravilhoso (o amor de um homem – grave, de preto – por um peixinho – pequenino e inocente, que vive fora d’água) é um posicionamento contra a imitação da vida, numa busca da vida verdadeira. Através da superação da realidade redutora, de que um peixe não possa sobreviver fora d’água ou do amor impossível entre um homem e um peixe, o poema revela possibilidades desconhecidas, permite a visão do mundo sob outro ponto de vista, quebrando os aspectos comuns da vida, deixando o leitor aberto a expectativas até então jamais pensadas. Isso torna ainda mais surpreendente o final, com a morte do peixe ao voltar a seu mundo “normal”. O leitor é tirado da acomodação pelo inesperado. Quintana consegue confundir o maravilhoso (o peixe que vive fora d’água) com o comum e o cotidiano da maneira mais natural possível, como se fosse normal um peixe tomar suco, por exemplo. Tudo se torna tão possível nesse cotidiano maravilhoso que surpreende o leitor com a morte por afogamento do peixinho. O poeta une o maravilhoso, a linguagem rebuscada (por exemplo, “verteu copioso pranto”) para criar uma ironia que fala sobre os desencontros amorosos, sobre a perda de personalidade ou cultura que pode ocorrer em relacionamentos de qualquer tipo (afinal, o peixe morreu afogado por já não mais saber viver embaixo d’água).

O poeta faz uma recusa do real sensível, não no sentido de negar viver nesta realidade, mas de aceitar viver numa situação histórica (com guerras mundiais, por exemplo) e numa sociedade que se mostra indiferente à poesia. É uma negação similar a dos surrealistas, que recusam a acomodação do homem em frente às mazelas do mundo que o cerca. Preferem desacomodá-lo através de outras realidades, como o que também ocorre nesse poema:

Soneto V

Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,
Nem é deste Planeta… Por sinal

Que o mundo se lhe mostra indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…

E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago País de Trebizonda…

Entre os Loucos, os Mortos e as crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…
(Quintana, 1976, p.8)

Quintana, frente à realidade de violência que o cerca, prefere não falar sobre a questão social e, enquanto o mundo se esbarronda, exila-se em Trebizonda (muito similar a Pasárgada – para onde o eu lírico gostaria de ir-se embora, segundo o poema de 1930, de Manuel Bandeira), em outro universo, onde, juntamente com os loucos, os mortos e as crianças, é possível ainda se ter desejos e esperanças. Esse refúgio em outras realidades pode ser interpretado como uma resistência indireta a uma realidade que desejava que fosse diferente. É através de seu universo surrealista, esse universo paralelo, que o poeta proclama e insiste sobre tudo quanto podia ter um rumo diferente, desejo e esperança comuns de loucos, mortos e crianças. “Pois bem, o surrealismo de Quintana, com a sutileza de que se reveste, é de ordem moral. Todo ele contestação, com freqüência, contestação abstrata, intelectual.” (Trevisan, 1998, p. 32).

Em outros poemas também se observa estes aspectos surrealistas, essa negação da realidade através da supra-realidade, do maravilhoso, fazendo uma crítica sutil e irônica dos valores burgueses, tais como no Soneto III:

Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecharam-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…

Rua em rua, acenderam-se os telhados,
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio…
As famílias, que haviam de pensar?

Nenhum milagre é permitido agora…
E lá se ia o resto do prestígio
Que no meu bairro eu ainda possa ter!…
(Quintana, 1976, p. 6)

Nesse poema, o cenário que se apresenta é completamente surreal, onírico, fantástico: peixes, em reflexos doirados, voando na luz, tabuletas que riem, sapatos velhos refloridos. A razão e a lógica inclinam-se diante da imaginação abrindo um leque de imagens oníricas. O eu lírico sente-se tentado a integrar esse mundo maravilhoso, a fundi-lo em sua realidade cruel; critica, de forma irônica, as regras da sociedade, as normas que fazem o mundo mesquinho. Através desse universo sobrenatural que procura subverter a norma estabelecida, a indagar a sociedade, posicionando-se contra a simples cópia da vida, aventurando-se na procura da vida realmente de verdade. É uma denúncia também da religião e dos “bons costumes”, pois os versos “Evitemos, Senhor, esse prodígio… / As famílias, que haviam de pensar?” são contrapostos a este “Nenhum milagre é permitido agora…”, ou seja, mesmo que isso fosse um milagre, não seria permitido, em nome da moral, da família e da tradição. Tudo o que pode representar um risco á sociedade instituída, isto é, tudo o que é diferente, que foge da realidade estabelecida, mesmo que seja um milagre, é censurado.

Quintana também apresenta sua crítica à realidade existente no poema “Objetos Perdidos”, onde os objetos que são desprezados pela sociedade, como guarda-chuvas esquecidos, botões desprendidos, dentaduras postiças (que representam tudo é diferente, inclusive as pessoas que não servem ao sistema estabelecido) ganham vida, sentimentos (“tristes”) e um lugar mágico para se refugiar, isto é, vão parar nos anéis de Saturno, não sendo mais, através dessa supra-realidade, desprezados.

O surrealismo de Mario se manifesta ainda na sua identificação com os loucos, os velhos, os bêbados, os mortos e as crianças, pois são estes que mais prontamente aceitam a realidade mais além, que estão afastados das normas sociais, que prontamente aderem à loucura poética. “Como a criança, o poeta é aquele que, por ter alcançado a ignorância poética, também inaugura o mundo a cada poema, de modo a lhe dar um sentido outro que aquele que o senso comum ou as ciências lhe conferiram.” (Yokozawa, 2000, p. 157).

Enfim, Quintana busca no dia-a-dia a matéria para a elaboração de sua poesia, sem, contudo, reproduzir um olhar automatizado, mas sim, procura reinventar o quotidiano. Utiliza-se do humor, da ironia, pinta os acontecimentos com cores “insólitas, oníricas, de tons surrealistas”, “de modo a apresentar uma visão desestabilizadora da vidinha diária aparentemente estabilizada, das verdades assentadas do senso comum, ou ainda dos valores estabelecidos pela tradição literária”. (Yokozawa, 2000, p. 55), como as cores com se descreve em seu “Auto-Retrato”, onde se pinta nuvem, árvore, isto é, “um desenho de criança, / Corrigido por um louco!”, um poeta que não aceita os valores morais, a violência, as mazelas da realidade que o cerca e prefere buscar na surrealidade as respostas para estes questionamentos. Por tudo isso que Mario Quintana pode ser considerado um grande poeta, gaúcho, e surrealista, à sua maneira.

 

NOTAS

1Mestre em Literatura Portuguesa, Brasileira e Luso-Africanas pelo PPG-Letras (UFRGS) – Site Pessoal

REFERÊNCIAS

DUPLESSIS, Y. 1956. O surrealismo. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 140 p.

MELLO, A. M. L. de 2002. (Org.). Cecília & Murilo Mendes – 1901/2001. Porto Alegre, Uniprom, 380p.

PONGE, R. (Org.). 1999. Surrealismo e novo mundo. Porto Alegre, Ed. UFRGS, 334 p.

QUINTANA, M. de M. 1976. Quintanares. 4. ed. Porto Alegre, Globo, 241 p.

QUINTANA, M. de M. 1973. Caderno H. Porto Alegre:,Globo, 183 p.

QUINTANA, M. de M. 1987. Da preguiça como método de trabalho. Rio de Janeiro, Globo, 161 p.

QUINTANA, M. de M. 1997. A cor do invisível. 4. ed. São Paulo, Globo, 160 p.

TREVISAN, A.; RUAS, T. 1998. Mario Quintana – livro-álbum. Porto Alegre, CEEE, 113 p.

YOKOZAWA, S. F. C. 2000. A memória lírica de Mario Quintana. Tese de Doutorado. PPG-Letras, UFRGS, Porto Alegre, RS. (no prelo) 303 f.

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Extraído do site Entrelinhas





A COISA – Mário Quintana

6 01 2011

A gente pensa uma coisa,

acaba escrevendo outra.

O leitor entende uma terceira coisa…

e, enquanto se passa tudo isso,

a coisa propriamente dita

começa a desconfiar que não foi propriamente dita.





O MENINO LOUCO – Mario Quintana

4 10 2010

Eu te paguei minha pesada moeda
Poesia…
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A lua vindo, esbelta como um lírio…
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula… Às vezes virginalmente nua…
E era branca como as nozes que os esquilos descascam na mata…
Pura como um punhal de sacrifício…
(Em meus lábios queimava-se, ignorada, a palavra mágica!)





O GRILO – Mario Quintana

24 09 2010

O grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.

O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura

as implacáveis solidões noturnas.

E se o que tanto busca só existe
em tua limpida loucura

- que importa? -

isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!