Quarta-Feira de Cinzas
Poema de T.S ELIOT
T.S.Eliot – o poeta, o crítico, o ensaísta, o dramaturgo – encarna uma das mais estranhas e poderosas permanências literárias de nossa época. Estranha, porque foi ele, acima de qualquer outro, o escritor contemporâneo que mais conscientemente buscou, na tradição cultural do passado, o sentido de um tempo presente que, por estar sempre vindo a sê-lo, fosse também futuro; poderosa, porque sua obra, a um só tempo: clássica e moderna, revolucionária e reacionária, realista e metafísica, está na própria raiz que informa e conforma a mentalidade poética de nossos dias, tendo exercido fecunda e duradoura influência sobre todas as gerações que se formaram a partir de 1930.
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio
V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
Ó meu povo.
VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.
Análise por Marli Savelli de Campos
Na tradição Quarta-Feira de Cinzas é o dia separado para a reflexão sobre o dever de mudança de vida, recordando que a vida humana é passageira, transitória, efêmera e frágil – viemos do pó e ao pó voltaremos.
T.S. Eliot intitulou seu poema como QUARTA-FEIRA DE CINZAS, pois relata fragmentos de pensamentos do eu – lírico reconhecendo sua condição de criatura limitada, mostrando a vulnerabilidade do homem diante da morte. “Eis a terra que dividireis conforme a sorte/ E partilha ou comunhão/ Não importa. Eis a terra. Nossa herança”. CINZAS leva–nos a realidade de princípio e fim, simbolizando a dor, a morte, a aflição, chamando-nos ao arrependimento, para examinarmos nossas ações e lamentarmos por nossos pecados. “E rogo a Deus que de nós se compadeça”; “E que a sentença por demais não pese sobre nós ”; “Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte”; “Senhor, eu não sou digno” . É um clamor de misericórdia.
Em Quarta-Feira de Cinzas o poeta vivencia um período de alucinação que acontece num processo de DESREALIZAÇÃO – há uma desordem de pensamentos, desvios de assuntos e finalidades, falta coerência entre as partes do poema devido à sucessão de novas idéias, muda-se constantemente de objetivos, troca de um assunto para outro sem mesmo concluir o anterior, com isso o texto torna-se incompreensível. Podemos ratificar tal situação com a explanação de alguns temas abordados no poema, como por exemplos:
Na primeira parte o poeta manifesta um pessimismo extremo, marcado pela palavra NÃO: “Porque não mais espero conhecer… / “Porque não mais espero retornar” / “Porque não espero” / “Porque não…” / Porque não…” / Porque não…”. O poeta demonstra uma frustração face à vida, passa por um período depressivo, não espera mais nada deste mundo, é como se tivesse desistido de tudo, inclusive de viver.
Já no objetivo seguinte passa a fazer uma reflexão sobre a morte. Relata sua própria morte, como se saísse de seu corpo e ficasse observando sua carne e órgãos sendo devorado pela morte. “Ao frescor do dia repousavam, saciados / De meus braços meu coração meu fígado …”
Logo depois, possivelmente, esteja referindo-se ao inferno, pois é fétido, menciona demônios, trevas, e por fim, clama ao Senhor. “O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão / Sob as miasmas que no fétido ar boiavam/ Combatendo o demônio das escadas. (…) Senhor eu não sou digno.”
Em seguida, volta-se para a religião, menciona o nome de Jesus, aquele que caminhou entre os homens, “Quem caminhou entre o violeta e o violeta” ensinando-nos o plano da salvação de forma simples, através de parábolas (registrados nas escrituras), “Falando sobre coisas triviais” realizou milagres. “Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias.” Jesus, que veio à terra, e foi nos ofertado para que pudéssemos obter a salvação “Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto” . E o povo foi contra Jesus e o crucificaram “E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete” Jesus diz: “Ó meu povo, que te fiz eu”.
Enfim, relatamos alguns dos temas abordados no poema, no intuito de comprovar a desordem entre as relações de uma divisão para com a outra, mas salientamos que, dentro de cada uma das partes também existe uma mistura de assuntos tornando-se tudo muito confuso, pois mesmo quando encontramos uma semelhança entre elas, o conjunto carece de sentido e de significado, o autor não se aprofunda nas idéias expostas, elas flutuam, por isso não nos leva a nenhuma conclusão. Toda essa desordem se dá em conseqüência da desrealização que o poeta vivencia enquanto escreve.
Podemos dizer que, com a desrealização de pensamentos a ABSTRAÇÃO está automaticamente inserida, já que é por meio dela que o poeta consegue imaginar as ações sem recorrer ao campo material, pois tudo o que ocorre no texto é um processo de criação mental, são imagens mentais abstratas, pensamentos livres, eventos imaginários que são transportados para o mundo físico. Eliot consegue transpor no seu poema, mesmo que de forma aleatória, a realidade de seus sonhos e visões, retratando sentimentos abstratos como: morte, tristeza, vida, dentre outros fatos que ocorrem simultâneamente.
A abstração foi uma das formas que o poeta encontrou para sair do mundo real e mergulhar num mundo de ilusões. Cada indivíduo tem um meio particular de se desligar da realidade e viajar num mundo de fantasias, seja por uns instantes, talvez por um período, ou a vida toda. O homem necessita de ilusão, pois é ela que nos faz suportar a realidade: é preciso se embriagar, seja de vinho, de virtude, de Deus, ou outros, para assim não afundar no poço horrível da solidão absoluta. A vida é uma grande ilusão, o REAL, é somente o Agora, dentro do tempo e espaço que as coisas estão acontecendo, o resto é pura ilusão, sonhos, mas que também são imprescindíveis, pois nos move a lutar por nossos objetivos, e tentar trazê-los para o plano material, físico, real, concreto. “Porque sei que o tempo é tempo/ E que o espaço é sempre o espaço apenas/ E que o real somente o é dentro de um tempo”.
Vivemos de ilusões porque nunca estamos satisfeitos com o que temos, a tendência é sempre pensar que o outro é melhor ou mais feliz. Mesmo com grandes conquistas, a angústia, o medo e a incerteza assolam as esperanças da humanidade, e toda conquista material não é capaz de suprir essa insatisfação.
“ Sofremos muito com o pouco que nos falta, e gozamos pouco do muito que temos”. SHAKESPEARE