A ENTREGA REAL – Clarice Lispector

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Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era.
Por não ser, era.
Até ao fim daquilo que eu não era, eu era.
O que não sou eu, eu sou.
Tudo estará em mim, se eu não for; pois ‘eu’ é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.
Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido.
Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos.
Mas agora, eu era muito menos que humana – e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido.
Pois só posso rezar ao que não conheço.
E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço.
Só esta é que é uma entrega real.
 

Clarice Lispector, in “A Paixão Segundo G.H”

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