OS ASSASSINOS (THE KILLERS) – Ernest Hemingway

XX

A porta da lanchonete Henry’s abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.

– O que é que vai ser? – perguntou George.

– Não sei – disse um dos homens. – O que é que você quer comer, Al?

– Não sei – disse Al. – Não sei o que quero comer.

Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.

– Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas – disse o primeiro homem.

– Não está pronto ainda.

– Então por que diabos põem isto no cardápio?

– Isto é o jantar – explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.

George olhou para o relógio arás do balcão.

– São cinco horas.

– O relógio marca cinco e vinte – disse o segundo homem.

– Está vinte minutos adiantado.

– Ah, pro inferno com o relógio – disse o primeiro homem. – O que você tem para comer?

– Posso servir qualquer tipo de sanduíche – disse George. – Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.os-assassinos

– Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.

– Isto é o jantar.

– Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?

– Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado…

– Vou querer presunto e ovos – disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.

– Me dê bacon e ovos – disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.

– Tem algo para beber? – perguntou Al.

– Cerveja, sucos e refrigerantes.

– Perguntei se tinha alguma coisa para beber?

– Só o que eu disse.

– Esta é uma cidade quente – disse o outro. – Como se chama?

– Summit.

– Já tinha ouvido? – perguntou Al ao amigo.

– Não – disse o amigo.

– O que fazem por aqui à noite? – perguntou Al.

– Eles jantam – disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.

– É isso mesmo – disse George.

– Então você acha isso mesmo? – Al perguntou a George.

– Claro.

– Você é um rapaz espertinho, não é?

– Claro – disse George.

– Bem, mas não é – disse o outro sujeito. – Você acha que ele é, Al?

– Ele é um bobo – disse Al. Virou-se para Nick. – Qual é o seu nome?

– Adams.

– Outro espertinho – disse Al. – Ele não é um espertinho, Max?

– A cidade está cheia de espertinhos – disse Max.

George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.

– Qual é o seu – perguntou a Al.

– Não se lembra?

– Presunto e ovos.

– É mesmo um espertinho – disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.

– O que está olhando? Max olhou para George.

– Nada.

– Vá pro inferno. Você estava me olhando.

– Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max – disse Al.

George riu.

– Você não tem que rir – disse Max. Não tem nada para rir, viu?

– Está bem – disse George.

– E ele pensa que está tudo certo – disse Max virando-se para Al. – Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.

– Ora, ele é um filósofo – disse Al. Continuaram comendo.

– Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? – perguntou Al para Max.

– Ei, espertinho – disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.

– Qual é a idéia? – perguntou Nick.

– Não há idéia nenhuma.

– É melhor dar a volta, espertinho – disse Al. Nick passou para trás do balcão.

– Qual é a idéia? – perguntou George.

– Não é da sua maldita conta – disse Al. – Quem está na cozinha?

– O negro.

– O que quer dizer com “o negro”?

– O negro da cozinha.

– Diga-lhe para entrar.

– Onde pensam que estão?

– Maldição, sabemos muito bem onde estamos – disse o homem chamado Max. – Parecemos tolos?

– Você fala como um tolo – disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui – disse a George -, diga ao negro para vir aqui.

– O que vão fazer com ele?

– Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?

George abriu o postigo da cozinha. – Sam – chamou. – Venha aqui um minuto.

A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. – Que foi? – perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.

– Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo – disse Al.

Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. – Sim, senhor – disse. Al desceu do seu banco.

– Vou à cozinha com o negro e o espertinho – disse ele. – Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. – O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry’s tinha sido transformado de salão em lanchonete.

– E então, espertinho – disse Max olhando para o espelho – por que não diz alguma coisa?

– E por que tudo isso?

– Ei, Al – chamou Max – o espertinho quer saber por que tudo isso.

– Por que não diz a ele? – a voz de Max veio da cozinha.

– O que você pensa de tudo isso?

– Não sei.

– Que acha?

Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.

– Eu não diria.

– Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.

– Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. – Escute, espertinho – disse a George, da cozinha. – Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. – Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.

– Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?

George não disse nada.

– Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?

– Sim.

– Ele vem jantar todas as noites, não vem?

– Ele vem aqui às vezes.

– Ele vem às seis horas, não vem?

– Quando vem.

– Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?

– De vez em quando.

– Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.

– Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?

– Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.

E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.

– Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.

– Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.

– Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.

– Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?

– Você fala demais, droga – disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.

– Eu suponho que você esteve num convento.

– Nunca se sabe.

– Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.

George olhou o relógio.

– Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?

– Tudo bem – disse George. – O que vai ser com a gente depois?

– Isso depende – disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.

George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.

– Oi, George – disse ele. – Posso jantar?

– Sam saiu – disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.

– É melhor eu procurar outro lugar – disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.

– Muito bom, espertinho – disse Max. Você até que é um cavalheiro.

– Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça – disse Al, da cozinha.

– Não – disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.

Às seis e cinqüenta e cinco George disse: – Ele não vem.

Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para “viagem”, que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.

– O espertinho sabe fazer de tudo – disse Max. – Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.

– É? – disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.

– Vamos dar-lhe dez minutos – disse Max.

Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.

– Vamos, Al – disse Max. – É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.

– É melhor dar-lhe mais cinco minutos – disse Max, da cozinha.

– Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.

– Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? – perguntou o homem. – É assim que é. Saiu.

– Vamos, Al – disse Max.

– Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?

– Não tem problema.

– Você acha?

– Claro. Já terminamos com isso.

– Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.

– Ah, mas que inferno – disse Max. Temos que nos divertir, não temos?

– Dá no mesmo, você fala demais – disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.

– Até logo, espertinho – disse ele a George. – Você tem muita sorte.

– É verdade – disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.

Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.

– Eu não quero mais nada disso – disse Sam, o cozinheiro. – Eu não quero mais nada disso.

Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.

– Escutem – disse ele. – Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.

– Eles iam matar Ole Anderson – disse George. – Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.

– Ole Anderson?

– Sim.

O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.

– Foram todos embora? – perguntou.

– Sim – disse George. Já foram.

– Eu não gosto disso – disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.

– Escute – disse George a Nick. – É melhor você procurar Ole Anderson.

– Certo.

– É melhor você não se meter em nada disso – disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.

– Irei procurá-lo – disse Nick a George. – Onde ele mora?

O cozinheiro se afastou.

– Garotos sempre fazem o que querem – disse ele.

– Vive na pensão de Hirsch – disse George a Nick.

– Vou até lá.

Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.

– Ole Anderson está?

– Você quer vê-lo?

– Se ele estiver.

Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.

– Quem é?

– É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson – disse a mulher.

– É Nick Adams.

– Entre.

Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.

– O que foi – ele perguntou.

– Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.

Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.

– Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.

Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.

George achou melhor eu vir contar a você.

– Não há nada que eu possa fazer a respeito – disse Ole Anderson.

– Vou lhe dizer como eles eram.

– Eu não quero saber como eles eram – disse Ole Anderson, olhando para a parede. – Obrigado por vir me contar.

– Tá certo.

thekillers1946Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.

– Não quer que eu vá a polícia?

– Não – disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.

– Tem alguma coisa que eu possa fazer?

– Talvez fosse apenas um blefe.

– Não. Não foi um blefe.

Ole Anderson virou-se para a parede.

– O pior é que – disse ele, voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.

– Você não poderia sair da cidade?

– Não – disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.

Olhava para a parede.

– Já não há mais nada a fazer agora.

– Não dá para resolver isso de algum modo?

– Não, eu errei. – Falava com a voz neutra e sempre igual. – Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.

– É melhor eu voltar e falar com George – disse Nick.

– Até logo – disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. – Obrigado por vir até aqui.

Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.

– Ele está no quarto o dia todo – disse a senhoria no andar de baixo. – Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: “Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este”, mas ele não estava com vontade.

– Ele não quer sair.

– Lamento que não se sinta bem – disse a mulher. – Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.

– Sei.

– A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto – disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. – É um senhor tão gentil.

– Boa noite, senhora Hirsch – disse Nick.

– Eu não sou a senhora Hirsch – disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.

– Bem, boa noite, senhora Bell – disse Nick.

– Boa noite – disse a mulher.

Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry’s. George estava lá dentro, atrás do balcão.

– Esteve com Ole?

– Sim – disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.

O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.

– Não quero nem mesmo ouvir – disse, e fechou a porta.

– Você falou sobre o que aconteceu? – perguntou George.

– Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.

– O que ele vai fazer?

– Nada.

– Eles vão matá-lo.

– Acho que vão.

– Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.

– Acho que sim – disse Nick.

– Que coisa infernal!

– É uma coisa terrível – disse Nick.

Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.

– Queria saber o que ele fez – disse Nick.

– Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.

– Vou sair desta cidade – disse Nick.

– Sim – disse George. É uma boa coisa a se fazer.

– Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.

– Bem – disse George, – é você não pensar nisso.

 

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3 respostas para OS ASSASSINOS (THE KILLERS) – Ernest Hemingway

  1. Francisco disse:

    Gostaria de saber quem fez essa tradução. Por que o site não informa o autor. Eu faço especialização em tradução e acho que o tradutor deve ser mais valorizado, inclusive com o seu nome na tradução.

    Atenciosamente,
    Francisco

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  2. Palavras Rabiscadas disse:

    Boa tarde Francisco,

    Eu não consegui a informação, assim que eu tiver conhecimento apresentarei os créditos. Você tem razão, devemos valorizar e fazer menção também dos tradutores.

    Obrigada pela visita.
    Marli.

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  3. ruyb disse:

    Hélio Pólvora…uma outra tradução…”os pistoleiros” é de Ênio Silveira e José J. Veiga..

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