SOBRE TROVA

22 02 2010

 

Trovador é uma palavra derivada do latim, acusativo singular de “trobaire” (poeta), do verbo trobar (inventar, achar). Todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador, pois nem todos Poetas sabem metrificar, fazer o verso medido. É como a classe médica. Há os Clínicos Gerais e os Cardiologistas. Todos são médicos mas só alguns são Cardiologistas.

A trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Mas, quando surgiu, não era assim. Seu aparecimento está intimamente ligado à poesia da Idade Média, onde a trova era sinônimo de poema e letra de música. A cultura trovadoresca refletia bem o panorama histórico desse período: as Cruzadas, a luta contra os mouros, o feudalismo, o poder espiritual do clero. Quanto à arquitetura, o estilo gótico é o que predominava. Na literatura, desenvolveu-se, no sul da França e em Portugal, um movimento poético chamado Trovadorismo. Os poemas produzidos nessa época eram feitos para serem cantados por poetas e músicos, e foram os primeiros a serem sistematicamente publicados.

Hoje, entretanto, a trova possui a sua conceituação própria, diferenciando-se da quadra e da poesia de cordel, da Trova Gauchesca, do Repente, bem como do poema musicado da Idade Média. Um movimento cultural em torno da trova surgiu no Brasil a partir de 1950 e chamou-se Trovismo. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge e pelo escritor e historiado, Eno Theodoro Wanke.

Em 1960, foram realizados os Primeiros Jogos Florais, com sucesso, e a fundação oficial da União Brasileira de Trovadores, juntamente com uma plêiade de idealistas do Rio de Janeiro.

O Dentista Gilson de Castro é considerado o maior divulgador da Trova nos anos 50 e 60. Usava o pseudônimo de Luiz Otávio. Era carioca, nascido em 18 de Julho de 1916 e deixou o seu nome inscrito nas páginas literárias desse país como o Príncipe dos Trovadores Brasileiros, pelo seu trabalho incessante e gigantesco em prol da causa da trova. No dia 31 de Janeiro de 1977, Luiz Otávio, alçou vôo para a eternidade.

Em 1980, ao criar o Clube dos Trovadores Capixabas, o poeta Clério José Borges fez despontar o Neotrovismo, que é a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil.

Trovismo: Movimento cultural em torno da Trova no Brasil, surgido a partir de 1950. A palavra foi criada pelo poeta e político falecido J. G. de Araújo Jorge. O escritor Eno Teodoro Wanke publica em 1978 o livro “O Trovismo”, onde conta a história do movimento de 1950 em diante.

Neotrovismo: É a renovação do movimento em torno da Trova no Brasil. Surge em 1980, com a criação por Clério José Borges do Clube dos Trovadores Capixabas. Foram realizados 20 Seminários Nacionais da Trova no Espírito Santo e 5 Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores. O Presidente Clério José Borges já foi convidado e proferiu palestras no Brasil e no Uruguai. Em 1987 concedeu inclusive entrevista em Rede Nacional, no programa “Sem Censura” da TV Educativa do Rio de Janeiro, ao lado do ator já falecido, Caíque Ferreira e do Cantor Antônio Maria.

DIFERENÇA DE TROVA E QUADRA

  A Trova possui o seu conceito plenamente estabelecido: É o poema de quatro versos setessilábicos com rima e sentido completo. Já Quadra é toda estrofe formada por quatro linhas de uma poesia.

Assim, não é verdade que Quadra e Trova sejam a mesma coisa e que a Trova evoca mais os Trovadores da Provença Medieval e que a Quadra seria uma forma de se fazer poesia mais moderna. A Quadra pode ser feita sem métrica e com versos brancos, sem rima. Aí então será só uma quadra sem ser a Trova que obrigatoriamente terá que ser metrificada.

  

  

TROVA É OBRA DE ARTE, É LITERATURA

Trova, nos dias atuais, é cultuada como Obra de Arte, como Literatura.

A Trova é uma composição poética, ou seja, uma poesia que deve obedecer as seguintes características:

1- Ser uma quadra. Ter quatro versos. Em poesia cada linha é denominada verso.
2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas. Cada verso deve ser setessilábico. As sílabas são contadas pelo som.
3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua idéia. A Trova difere dos versos da Literatura de Cordel, onde em quadra ou sextilhas, o autor conta uma história que no final soma mais de cem versos, ou seja, linhas. A Trova possui apenas 4 versos, ou seja, 4 linhas.
4- Ter rima. A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB. Existem Trovas também nos esquemas de rimas ABBA e AABB.

ESCRITOR JORGE AMADO E A TROVA

Segundo o escritor Jorge Amado:

 “Não pode haver criação literária mais popular e que mais fale diretamente ao coração do povo do que a Trova. É através dela que o povo toma contato com a poesia e por isto mesmo a Trova e o Trovador são imortais”

Trova é uma composição poética clássica de forma fixa, constante de quatro versos de sete sílabas poéticas, rigorosamente metrificados e rimados. Uma estrofe, qualquer que seja constante de quatro versos chama-se quadra (=quarteto). A trova, portanto é uma quadra, mas nem toda quadra é uma trova. Isso por que, uma quadra para ser trova deve atender as exigências de ter sentido completo e independente, e de possuir as rimas assim esquematizadas: ABAB; ABBA; AABB; e ABCB. A trova mais cultivada é a elaborada com o esquema de rimas ABAB.

ORIGEM DA TROVA

A Trova é uma forma poética milenar. Possui mais de mil anos. É originária da Península Ibérica. Península é uma porção de terra cercada de água por todos os lados, exceto um, por onde se liga a outra terra. A Península Ibérica fica no Continente Europeu, ou seja, na Europa e, é constituída pelos países Espanha e Portugal.

Até o século passado, isto é, século XIX, a Trova era exclusivamente popular. Feita pelo povo. Os textos em forma de Trova se popularizavam nos cantares da rua, nas serenatas, nos passeios, nas festas de casamento, etc. É certo que a Trova nasceu no período da Idade Média.

A Idade Média compreende o período de anos entre a invasão do Império Romano pelos bárbaros, no século V, em 476, até a data da ocupação de Constantinopla pelos Turcos, em 1453, no século XV. Na Antigüidade, vários povos, como persas, gregos, egípcios e romanos, dominaram vastas regiões pela força, através de exércitos e com guerras, construindo imensos Impérios.

Em 1389, os Turcos então chamados povos bárbaros, já atacavam as províncias orientais e em 1453 ocuparam Constantinopla. Era o fim do Império Bizantino que recebera este nome por estar centralizado na antiga cidade de Bizâncio. Constantinopla passou a chamar-se Istambul, e a religião Cristã foi substituída pela religião dos invasores Turcos, chamada muçulmana ou Islamismo.

Analisando a poesia das músicas cantadas nas cerimônias litúrgicas, ou seja, nas atividades religiosas, lá pelo século V, o historiador, Eno Teodoro Wanke, acabou descobrindo muitos refrões, já em forma de quadras.
Refrão significa estribilho, ou seja, versos repetidos no fim de um grupo de versos de uma composição poética.

A Península Ibérica, no século VII fora invadida pelos Árabes. Segundo a Bíblia, os Árabes são descendentes de Ismael, filho de Abraão.
Árabe, significa “aqueles que falam claramente”. Subdivididos, em princípio, em muitas tribos, a partir do século VII, os Árabes formaram um Império baseado no Islamismo, uma religião fundada pelo profeta Maomé e que tem o Alcorão como livro sagrado de leis.

O Império Árabe expandiu-se através de feitos militares, chegando a ocupar vasto território em três continentes: Ásia, África e Europa. Os Árabes eram originários da Arábia, região da Ásia. Os Turcos são originários da Turquia, região também da Ásia e cuja extremidade sudeste do território ocupa a Europa. Por professarem uma religião diferente da religião Cristã, os Árabes e os Turcos eram chamados pelos povos Cristãos, como os Bárbaros.
No século XI, a expansão dos Árabes ia pela Ásia Central Soviética até o noroeste da África e a Península Ibérica. Assim o poeta Mocadem, poeta cego, nascido, em 840 da nossa Era, em Cabra, na região espanhola da Andaluzia, foi um dos primeiros a utilizar a Trova popular em estado rude, utilizando-a nos seus escritos em árabe, que fechavam com um poema curto, popular, em língua romance (a falada na Andaluzia) denominada então de Carja. Mocadem nasceu em plena dominação Árabe na Espanha, na Península Ibérica e era, portanto um poeta de língua Árabe. Faleceu em 920 D.C.

A partir do século XIII, a Trova começa a desenvolver-se com certo requinte, ou seja, de forma mais aprimorada, mais bem feita. Em “Cantigas de Santa Maria”, livro escrito pelo Rei Afonso X, de Castela, região da Espanha, no século XIII, encontramos mais de 200 refrões com as características da nossa Trova. Eis um exemplo:

Conhecidamente mostra
milagres Santa Maria
em aqueles que a chamam
de coração, noite e dia.

 Os séculos seguintes estão cheios de poemas com refrões, com as características de Trova.
No século XVI, encontramos Trovas do Poeta Camões. Luís Vaz de Camões é considerado um dos maiores poetas épicos. Poeta épico é aquele que faz poemas grandes, sobre assuntos e ações heróicas.
Camões nasceu em Lisboa em 1524. Em 1552, numa batalha na África, perdeu o olho direito. Pouco se sabe com segurança sobre a vida de Luís Vaz de Camões. É provável que tenha nascido por volta de 1525, em Lisboa. Lutando contra os mouros, na investida portuguesa em Ceuta, em 1549, perde a vista direita, razão pela qual será sempre representado futuramente com um tapa-olho. Preso durante o ano de 1552 por se envolver em brigas, embarca para o Oriente no ano seguinte em serviço militar. Teve um relacionamento com Dinamene, companheira chinesa do poeta. Navegando pelo rio Mecon, na Indochina, o casal sofreria um naufrágio. Diz a lenda que Camões teria conseguido salvar a si e aos manuscritos dos Lusíadas, enquanto a infeliz Dinamene morria afogada. Camões dedicaria à amada morta vários de seus poemas líricos, procurando elevá-la às mesmas alturas da Laura de Petrarca ou da Beatriz de Dante. Retornando a Portugal, consegue publicar, em 1572, a sua obra-prima, Os Lusíadas, e passa a viver de uma modesta pensão oferecida por Dom Sebastião, a quem dedicara seu poema épico. Morre em 1580, mesmo ano em que Portugal perdia sua autonomia política, caindo sob o domínio da Espanha. Em carta a Dom Francisco de Almeida, o poeta sintetiza este momento: “…acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”. Lisboa é a Capital de Portugal, país que com a Espanha forma a Península Ibérica.
Camões escreveu o poema épico, “Os Lusíadas” que possui 1.102 estrofes e 8.816 versos. Estrofe é um conjunto de versos de uma composição poética. Já verso, em poesia, é cada linha de um poema. Assim os “Os Lusíadas” é um poema que possui 8.816 linhas.
O livro “Os Lusíadas” foi publicado com sucesso em 1572. Apesar do sucesso de sua obra épica, Camões morreu na miséria em 1580. Poemas líricos seus, só foram publicados 15 anos após sua morte. Eis uma de suas Trovas, no esquema de rima “ABBA”:

Campos bem-aventurados
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre, já são passados.

A partir de Camões (Século XVI) até o Século XVIII, a trova ficou, praticamente, no obscurantismo. Somente por volta de 1815, através de uma coletânea de contos folclóricos alemães de Wilhein e Jacob Grimm foi que a trova reapareceu. Em 1859, houve uma publicação sobre “trovas folclóricas” de Cecília Bohl, intitulada Cuentos y Poesias Populares Andaluces. Em 1867 veio a lume a coleção de “Trovas Portuguesas”, organizada por Teófilo Braga (1843-1924). Em 1883, foi lançado em Portugal, o livro “Cantos Populares do Brasil”, de autoria do sergipano Silvio Romero (1851-1914).
Em 1902, Antônio Correa de Oliveira (1879-1960) publicou o livro “Cantigas”, o primeiro livro de Língua portuguesa inteiramente de trovas.

Autor: Clério José Borges

EXTRAIDO DE: http://portalliteral.terra.com.br/

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3 responses

1 11 2010
Diferença de Trova e Quadra « PALAVRAS RABISCADAS

[…] A Quadra pode ser feita sem métrica e com versos brancos, sem rima. Nesse caso será só uma quadra sem ser a Trova, que obrigatoriamente terá que ser metrificada. (Sobre Trova) […]

22 08 2011
carina de melo souza

acho bom para as crianças

18 12 2012
Victor

me qjudou bastante…pensei q na quadra fosse obrigatorio a rima do 2 com o 4 verso

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