POETRIX

15 03 2010

O Poetrix vai às aulas – por Goulart Gomes

O que podemos fazer em três segundos? Aonde podemos chegar com três passos? O que podemos escrever em três linhas? Muito mais do que se possa imaginar. Desde o século XIV, com Dante Alighieri, o autor da Divina Comédia, esse é um desafio que tem assaltado vários escritores. Boccaccio, Petrarca, Byron, Shelley, Schlegel, Gregório de Matos, Machado de Assis, Olavo Bilac foram alguns dos seus cultores. No Brasil, no início do século XX, assistimos à chegada do haicai terceto de origem japonesa, que teve como maior divulgador, então, o poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), mas cujo precursor foi, em verdade, o escritor baiano Afrânio Peixoto (1876-1947). Desde então, inúmeros poetas têm se dedicado a experimentar, com maior ou menor intensidade, a estrutura poética que convencionou-se chamar terceto, herdeiro da terza rima italiana.

Encontramos tercetos nas obras de inúmeros escritores, como Drummond, Guimarães Rosa, Adélia Prado e, principalmente,  Alice Ruiz, Mário Quintana, Paulo Leminsky, Millôr e Olga Savary.

Nos estertores do século XX, surge na Bahia, uma nova proposta que procura revitalizar o exercício do terceto: é o Poetrix, definido como um terceto contemporâneo de  temática livre, com título, ritmo e um máximo de trinta sílabas, possuindo figuras de linguagem, de pensamento, tropos e/ou teor satírico.

 

A palavra POETRIX (neologismo criado a partir de POE, poesia e TRIX, três) surge pela primeira vez no Manifesto Poetrix, publicado no livro TRIX – Poemetos Tropi-kais, de Goulart Gomes (Bahia: Pórtico Edições, 1999), lançado na Feira do Livro da Bahia (hoje, Bienal) e premiado com Menção Especial no Prêmio Jorge de Lima, outorgado pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 2000.

Além de conquistar novos adeptos a cada dia, proporcionando uma verdadeira revitalização do terceto, o poetrix vem sendo cada vez mais utilizado por professores dos níveis fundamental, médio e superior – como um elemento de ampliador de  leituras e intertextualidades, potencializando o universo criador de seus alunos. Por ser breve, conciso, objetivo e, contudo, abrangente, o poetrix consegue de um modo inusitado, facilmente despertar o gosto, a fruição, o prazer de ler e enxergar além das palavras explicitadas, instigar a pessoa a ir em busca do sentido polissêmico das palavras e expressões, a se lançar na doce aventura de outras leituras (até mais extensas), a consultar o dicionário e a gramática normativa numa perspectiva funcional, utilitária.

 

As atividades grupais, promovidas numa perspectiva dialógica interacional bakhtiniana criam teias de cumplicidade entre as pessoas envolvidas e, na escola contemporânea especialmente, essa parceria configura-se como algo essencial à construção e reconstrução do conhecimento. E nesse processo criativo, de diálogo entre interlocutores e entre discursos, a linguagem polifônica do poetrix cai como uma luva!
Assim, ao promover oficinas de criação literária envolvendo a poesia, o professor pode partir de temas propostos por ele ou por seus alunos ou até mesmo de poetrix feitos por outros autores (que poderão servir, inicialmente, como referência) e instigar as pessoas a ousarem criar e/ou recriar produzindo intertextualidade, outras diversidades de vozes. As formas múltiplas de poetrixduplix, triplix, multiplix – que são resultado da junção de dois ou mais poetrix.

Assim é o poetrix: apenas três linhas, mas que fazem tanta diferença na razão e na emoção de quem o lê quanto três segundos para um piloto de Fórmula Um ou três passos para um maratonista.

 

Extraído de:  Movimento Poetrix

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16 03 2010
Luiz de Almeida

Texto Maravilhoso.
Luiz de Almeida & Blog Retalhos do Modernismo

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