Teoria Literária não dói (1) – Sonetos, trovas, prosa/verso.

3 11 2010

     Lidar com intelectuais é tão difícil quanto irritante. Alguns pensam que são deuses, outros têm certeza que são! O ego dessa raça – da qual tenho orgulho de fazer parte – é tão inchado que lhes ofusca às vezes o raciocínio lógico e o bom senso, levando-os a comportamentos estranhos e socialmente contraditórios, ainda que ninguém esteja mexendo com os seus diletos “filhinhos” – as suas criações literárias. Basta que paire no ar um pequeno indício de controle ou de ar professoral para que logo eles assumam intransigentes posições em defesa daquilo que eles chamam de “liberdade de criação”, mas que, na verdade, é “que-se-danem-as-regras”.
    

     Por essa razão é que eu, professor antigo de Língua Portuguesa e Literatura, ex-crítico literário de alguns jornais e revistas nordestinas, jamais me atrevi a escrever algo sobre Teoria Literária aqui no Recanto das Letras, mesmo vendo gente cometendo barbaridades na classificação das suas criações literárias. Mas, atendendo a pedidos que me foram feitos por três amigas, escritoras e poetisas do Recanto, que se revelaram tão humildes a ponto de me confessar que precisavam aprender algo sobre Teoria Literária, mas de uma maneira descomplicada e informal, vou passar-lhes algumas pertinentes informações para que, sem necessidade do uso de analgésicos, diminuam as suas dores de cabeça na hora de categorizar os seus textos. E fico torcendo para que não se diga apressadamente por aí que quero ensinar alguém a ser poeta ou escritor. Nada disso, quem é já nasce feito.
 

    Para mim, o problema não está no ato da criação, que é livre e não se sujeita a nenhuma regra; o problema é quando se quer dar nomes aos bois. E nesse aspecto, neste primeiro artigo, quero abordar aqui apenas a questão dos sonetos e trovas, e da doida confusão que às vezes se estabelece entre prosa/verso.

     Comecemos pelos sonetos e trovas. Muito antes que nascesse qualquer um de nós daqui do Recanto das Letras, soneto já era uma composição poética de forma fixa, constituída de dois quartetos e dois tercetos, onde se observa rigorosamente a métrica, o ritmo e a rima: já a trova sempre foi uma composição de 4 versos, com sete sílabas métricas cada um, e rimando pelo menos o 2º com o 4º. Ter uma inspiração para criar um texto – às vezes muito bom – e classificá-lo como soneto ou trova sem que possua as características exigíveis para esses dois tipos de composição poética é, no mínimo, um contrassenso. Por que fazê-lo, se o autor pode classificá-lo em “n” tipos de poesias livres não sujeitas a qualquer critério técnico-literário?
    

     Se alguém fez dois quartetos e dois tercetos que, entretanto, segundo as normas da Teoria Literária não é um soneto, não precisa nem desprezar a sua criação literária nem “pagar mico” publicando um “soneto” que não é soneto. Basta desfazer o esquema das estrofes, juntar os dois quartetos e os dois tercetos e, pronto, terá um poema de 14 versos! Se for bonito, continuará bonito.  Quanto às trovas, mais fácil ainda será não “pagar mico” na categorização do texto. Se alguém fez 4 versinhos que, entretanto, segundo as normas da Teoria Literária não é uma trova, basta classificá-lo como um poema pequeno, isto é, um Poema Minimalista, categoria disponível no Recanto das Letras. Vai continuar tão lindo quanto antes. Se, claro, ele era lindo antes.
    

     A questão da confusão verso/prosa – principalmente na classificação de Prosa Poética e Pensamentos –  merece maior atenção, porque na maioria das vezes eu percebo que os autores erram na maior boa-fé do mundo, isto é, eles sequer suspeitam que estão equivocados.
    

     Portanto, vamos logo deixar bem claro que só há duas formas de construir um texto literário: em prosa ou em verso. A prosa é o texto corrido, o  discurso em linha reta até o fim, enquanto o verso é cada uma das linhas partidas ou descontinuadas que constituem um poema. Agora, vamos tentar, na prática,  elucidar as dúvidas usando quatro textos de minha autoria:

1º Texto:

“Quando o teu amor por mim acabar, não precisas me avisar nada; eu o saberei pelos teus beijos frios e pelo teu olhar ausente. Não, não me digas nada. Não me digas com palavras o que o meu coração já  terá adivinhado.”

     Não há a menor dúvida de que este é um texto em prosa, pois é um texto corrido, um discurso em linha reta até fim da margem do papel ou do formulário virtual.  E no caso do texto acima, pelo seu estilo lírico e pela emoção que perpassa pelas suas linhas, eu, com certeza, deveria classificá-lo na categoria de Prosa Poética.

2º Texto:

“Quando o teu amor por mim acabar,
não precisas me avisar nada;
eu o saberei pelos teus beijos frios
e pelo teu olhar ausente.
Não, não me digas nada.
Não me digas com palavras
o que o meu coração já  terá adivinhado.”

     Mesmíssimo texto! Mas atentem para o fato de que a escrita não vai até o fim da margem do formulário eletrônico; os versos (linhas) voltam quando completos ou para se completarem com os versos seguintes. Portanto, este mesmíssimo texto que lá na frente era uma Prosa Poética, agora já passa a ser uma poesia, e somente assim deve ser classificado: Poesias>Amor, Poesias>Desilusão, etc. etc.

3º Texto:

“Só não envelhece quem morre antes. Então, estou gostando de envelhecer. E, se sonhar faz bem à saúde, estou ficando cada vez mais um velho poeta saudável.”     

     O texto  é corrido, em linha reta até o final da margem do formulário eletrônico. É claro, pois, que é um texto em prosa. Como nesse texto eu usei frases para formular conceito, opinião, apreciação, avaliação, etc., nenhuma dúvida poderei ter para publicá-lo na categoria de Pensamentos.

4º Texto:

” Só não envelhece quem morre antes.
Então, estou gostando de envelhecer.
E, se sonhar faz bem à saúde,
estou ficando cada vez mais poeta saudável. “
     

     Mesmíssimo texto! Poderei ainda classificá-lo simplesmente como Pensamentos? Claro que não, pois agora eu não escrevi frases num texto corrido, eu escrevi linhas descontinuadas (versos) que se juntaram para fazer um poema. E como já sabemos que o poema exprimia uma opinião, um pensamento, classifiquemo-lo como tal, em Poesias>Pensamentos.
    

     Nunca vi ninguém escrever um texto em prosa e classificá-lo como poesia, mas o contrário se dá e muito amiúde no Recanto das Letras, erro, como já disse, quase sempre de boa-fé do autor, talvez devido ao tom mais ou menos informal ou confessional, intimista ou apologístico que ele imprime aos seus versos. Ao fazer versos que lhe deixam muito mais à vontade (geralmente versos compridos) para comunicar o seu lirismo, classifica-os logo como prosa poética; ao fazer outros, expressando suas confissões, idéias, opiniões, perplexidades e pensamentos íntimos, apressa-se a classificá-los pura e simplesmente como pensamentos (prosa), esquecendo-se de que são pensamentos expressos em versos e que, portanto, pertencem ao gênero Poesia.

     Mas, não há como ter dores de cabeça na classificação dos seus “filhinhos”, minhas queridas amigas. Qualquer que seja a intenção da criação literária, se o fazem em linhas corridas, então estão fazendo Prosa – e teremos prosa poética, redação, pensamentos, frases, contos, crônicas, artigos, mensagens, etc.; e se o fazem em linhas partidas, descontinuadas, estão fazendo Versos – e teremos poesias x ou y, soneto, trova, poetrix, haikai, rondel, etc.
    

     Peguei o gosto; no próximo, falarei de outras questõezinhas relacionadas com a nossa arte de escrever. Até porque Teoria Literária não dói.

 

Autor: Antonio Maria Santiago Cabral

Publicado no Recanto das Letras em 09/11/2009

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3 responses

11 11 2010
Paulo de Andrade

Do poeta Paulo de Andrade

O que é poesia, verso, poema, prosa, trova, soneto, filosofia?
Quem seia capaz de responder em forma de inspiração,
Sendo eu um poeta não sei muito descrever o que seja,
Se um verso, poesia, poema pode se ouvir numa canção.

Quando alguém com seu grande talento poético,
Faz uso da sua voz pra melhor mostrar a sua poesia,
Através de um pensamento busca da sua mente,
Uma história qualquer com um fundo de filosofia.

Relata a realidade da vida em verso e prosa,
onde fica registrado um soneto, trova ou poema,
Que nos revela a cada momento o nosso problema,
A natureza, o mundo, um jardim de rosa.

A trova no seu contexto filosófico em cada fala,
Cantada ou declamada, o poeta nosso porta voz,
Numa canção deixa a sua voz nos encantar,
Com a nossa história de vida, o que existe em nós.

A nossa educação, nossa vida revivida em cada verso,
Através de cada canção sem ocultar,
Toda essa realidade, do mundo desconhecida,
Vivida distante do nosso olhar.

Expressa o cantor a nossa história de vida,
Descreve o poeta a comentar,
O que se passa além da nossa imaginação,
Para melhor nos encantar.

11 11 2010
Paulo de Andrade

Por essa estrada sem fim,
Vou vivendo a poetar,
Falando um pouco de mim,
Busco pelo seu olhar.

Penso na morena proibida,
Que um dia pude respeitar,
Quando numa tarde ela se exibia,
Sem sua nudez ocultar.

E a sua ousadia eu descrevia,
Em cada inspiração a mostrar,
Toda essa verdade oculta,
Que o mundo não podia olhar.

Na minha rua deserta,
Onde eu vivo a poetar,
Da minha janela eu penso,
Como ela foi capaz de mostrar.

Aquele corpo de menina,
Distante de ser uma mulher,
Ela cresceu sua nudez,
Ela agora busca esconder.

Recordo mais uma vez,
Em verso a revelar,
Quando ela nua se exibia,
Sem se intimidar.

E aquele corpo eu via,
Sem mesmo querer olhar,
Da sua casa com a porta entre aberta,
Ela se exibia sem ocultar.

A sua beleza nua proibida,
Pra quem não podia sonhar,
Que ela seria possível,
Um dia poder se conquistar.

Ela cresceu se fez mulher,
Só me restou mesmo nela me inspirar,
Sem razão ela brigou comigo,
Sem querer do seu erro se desculpar.

Sendo eu seu grande amigo,
Incapaz de querer com ela brigar,
Como a lua me vejo aqui distante,
E quase diante do seu olhar.

Nos meus recados orkut,
Deixo essa poesia por mim falar,
O quanto eu gosto dela,
E eu pude o seu erro logo perdoar.

Do poeta: Paulo de Andrade

11 11 2010
Paulo de Andrade

Com rimas ou sem rimas,
transcrevevo meu verso,
A minha história de vida,
Com verso eu converso.

Falo do mundo, do amor,
Da natureza, da lua,
Falo da linda morena,
Que se exibia nua.

Falo de todos, de mim,
Sem querer com a verdade,
Ferir quem viveu essa história,
Cada um com sua liberdade.

Sua vida em verso e prosa,
Posso aqui descrever,
Sou apenas um poeta,
Versos a escrever.

Com rima ou sem rima,
Passo a vida a poetar,
Como poeta de talento,
Na mulher a me inspirar.

Do poeta: Paulo de Andrade

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