O PEQUENO PRINCIPE – Antoine de Saint-Exupéry

27 03 2011

Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…

– Sou uma raposa, disse a raposa
– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste!
– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Você não me cativou ainda.
– Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

– Que quer dizer “cativar”?
– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
– Procuro os homens, disse o principezinho – Que quer dizer “cativar”?
– Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem.
– Tu procuras galinhas?
– Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços.
– Criar laços?
-Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Será o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

-Começo a compreender, disse o principezinho.
-Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou …
-É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra …
– Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

– Num outro planeta?
– Sim.
– Há caçadores nesse planeta?
– Não.
– Que bom ! E galinhas?
– Também não.
– Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

– Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de teus passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem fugir para debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha longe, os campos de trigo?

Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem coisa alguma. E isso é triste, mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo …

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

– Por favor… cativa-me, disse ela.
– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo, amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer…
– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um cativa-me!

-Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
-É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…

No dia seguinte o príncipe voltou.

_ Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa. _ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração… É preciso que haja um ritual.

_ Que é um “ritual” – perguntou o principezinho.

_ É uma coisa muito esquecida também – disse a raposa. _ É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adotam um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

_ Ah! Eu vou chorar.

_ A culpa é tua – disse o principezinho. _ Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…

_ Quis – disse a raposa.
_ Mas tu vais chorar! disse ele.
_ Vou – disse a raposa.
_ Então, não terá ganho nada!
_ Terei, sim – disse a raposa – por causa da cor do teu cabelo, vou olhar o trigo, e tu estarás sempre presente no meu coração.

Depois ela acrescentou:

_ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde a três eu começarei a ser feliz!
_ Vai rever as rosas. Assim, compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O pequeno príncipe foi rever as rosas:

_ Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo.

E as rosas ficaram desapontadas.

_ Sois belas, mas vazias – continuou ele. – Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas) Foi ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

_ Adeus… – disse ele.
_ Adeus – disse a raposa. – Eis meu segredo. É muito simples: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisivel aos olhos.
_ O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não se esquecer.
_ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.”

E deitado na relva, ele chorou.

_ Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu ele, para não se esquecer.

_ Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. – Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa

-Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para não esquecer.

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

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One response

14 04 2011
Rita Theresa Simonatti Noga

ESTA PARTE DO LIVRO É LINDA ENTRE A RAPOSA E O PRINCIPE, É MARAVILHOSA. EU AMO ESTA PARTE.

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