De: ZENOBIA Camprubi Aymar __ Para: Robindronath TAGORE

 Madrid, 13 de Agosto de 1918

   Caro Sr. Robindronath Tagore:

    Durante muito tempo eu estive a lhe escrever nos meus sonhos, e as cartas que lhe escrevi foram tantas que, agora quando realmente me ponho a escrever-te, não posso fazer idéia de que realmente esta carta lhe vai chegar, e sei que não haverá de dizer nenhuma das coisas que tive pensando durante estes quatro anos. O meu esposo sempre me dizia: “Não escrevas, não te das conta de que Robindronath Tagore não nos conhece? O que vai lhe dizer numa carta? Espera que termine a guerra e depois iremos vê-lo, na Inglaterra, se ele estiver lá, ou senão, à Índia, à sua escola, que seria muito melhor”. Mas a Índia está muito longe, e o tempo passa, e se nunca nos conhecermos e perdermos para sempre o prazer de ter comunicação direta com você? Quando penso em todas as almas maravilhosas através dos anos, desejo ter a oportunidade de me sentar um momento em sua presença, e a idéia de que há tal alma no mundo agora e deixar passar o tempo sem apresurar-se a tocar o dobrado do seu vestido é insuportável.
    Faz agora mais de três anos desde que começamos a traduzir seus trabalhos e esperamos que quando a edição completa esteja terminada, iremos à Índia e a levaremos para perguntar-lhe, se tem tempo. E se não, para que um dos seus amigos que o conheça bem, nos ajude a fazer uma perfeita nova edição comparando-a com os originais em bengalí. Infelizmente, não sabemos bengalí, e provavelmente não exista ninguém na Espanha que o saiba. Mas há tal semelhança de sentimentos e condições entre Índia e Andaluzia, que os andaluzes acham que estão falando de sua terra. Você é sem dúvida mais lido na Inglaterra e Estados Unidos, mas nem por um momento acredito que seja tão profundamente sentido. Seus leitores aqui admiram-o ardentemente e com tal plenitude de compreensão que penso que o emocionaria se pudesse vê-lo. Todos nós desejariamos ter alguma ideia da música das suas canções, mas parece ser que não há possibilidade de escuta-las e os poemas estão tão cheios de música em si mesmos. Os jovens compositores que conhecemos têm entre suas canções favoritas algumas inspiradas em seus poemas. Falla, nosso brilhante compositor, comentou-nos a última vez que o vimos, que ficara tão comovido pelo “Carteiro”, que tinha começado uma composição inspirada  nele. O Carteiro do Rei teve um profundo interesse dos espanhois mas que nenhum até o de agora, agás A Lua Crescente (ou Nova). A ternura de todo o que se refere à infância fê-lo muito querido. Recebemos constantemente signos de profunda apreciação de seus trabalhos e sempre quis enviá-los, mas não sabia se isso significaria muito para você. Quando li o seu livro Lembranças (ou Memórias), alegrava-nos pensar que tivera conhecido e apreciado ao Padre Penharanda, já que ele era andaluz como meu esposo, e o meu esposo conhecia familiares seus na ordem quando foi ao colégio jesuita de Puerto de Santa Maria, de criança. Isto parecia estabelecer um laço pessoal entre nós e quase llhe escrevi uma carta nesse dia.
    Estimado Sr. Robindronath, espero que não o tenha aborrecido com esta larga carta, e quando penso na sua amabilidade para com todos os seres vivos, também espero que me responda, estarei esperando todos estes longos dias enquanto minha carta viaja à Índia e como Amal, com todo o meu coração na espera.
                                         
                                                                      Zenóbia Camprubí de Jiménez
1.-O Padre Penharanda foi professor de Robindronath no St. Xavier´s College de Calcutá. Tagore fala dele no seu livro de Memórias ou Lembranças.
2.-Zenóbia Camprubí Aymar, esposa do poeta e Prémio Nóbel de Literatura em 1956, Juan Ramón Jiménez, realizou a tradução ao castelhano de mais de vinte livros de Robindronath Tagore. Ela fazia a tradução básica e logo Jiménez dava-lhe o toque poético.
3.-Zenóbia refere-se ao compositor andaluz, de Cádiz, Manuel de Falla (1876-1946), falecido na Argentina.
4.-Amal (em bengalí seu nome certo é Omol) é o protagonista de O Carteiro do Rei, que entusiasmado, ao final da obra, espera uma carta que lhe tem que mandar o Rei. Em Brasil esta obra foi traduzida por Cecília Meireles.
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Uma resposta para De: ZENOBIA Camprubi Aymar __ Para: Robindronath TAGORE

  1. helio.rocca disse:

    Muitos detalhes deste escritor que passei a admirar, descortino em seu maravilhoso blogger amiga. Se tiver poemas românticos de Tagore, poderia enviar a meu e-mail? helio.rocca@yahoo.com.br – abraço fraterno, HR.

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