GALINHA CEGA – João Alphonsus

27 09 2010

Na manhã sadia, o homem de barbas poentas, entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão molengo:

– Frangos BONS E BARATOS!

Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam apenas que os soltassem. Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando no terreiro amplo e longe.

– Psiu!

Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.

Quanto? Tanto. Mas puseram-se a discutir exaustivamente os preços.

Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O comprador brusco.

– Olhe esta franguinha branca. Então não vale?

– Está gordota… E que bonitos olhos ela tem. Pretotes… Vá lá!

O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu em gritar pela rua que despertava:

– Frangos BONS E BARATOS!

Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no barracão.

– Olha, Inácia, o que eu comprei.

A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas rugas.

Permaneceu calada.

– Olha os olhos. Pretotes…

– É.

– Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa galinha.

– É.

No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe atirava divertidíssimo.

A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os galináceos podiam flanar à vontade e dormir a sesta.

A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregaram os balaios a trouxe-mouxe para um galinheiro sobre rodas, comprido e distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante, formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um cheiro paulificante. De longe em longe as paisagens paravam. Mas novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e apareceram fagulhas.Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo. Adormecera numa enjoada madorna…

Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia de sede e fome.

Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele, bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que era bem bonito. Já lá vinha… Sujeito cacete.

O galo – có, có, có – có, có, có – rodeou-a, abriu a asa, arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram pelo mato numa carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar, querendo e não querendo.

– A melhor galinha, Inácia! Boa à beça!

– Não sei por quê.

– Você sempre besta! Pois eu sei…

– Besta! besta, hein?

– Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu gosto da galinha e fica me amolando.

– Besta é você!

– Eu sei que eu sou.

Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi correndo defender o seu quinhão, e os olhos do dono descansaram em suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a anormalidade. A branquinha – era o nome que o dono lhe botara – bicava

o chão doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até catar um grão que nem sempre era aquele que visava.

O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas

não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu. Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, ai… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.

Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.

Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos, abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre, indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente, pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se finando quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em redor se havia sumido.

Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo. As outras cantavam.

Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria ver! Para depois cantar.

As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.

– A coitada está cega, Inácia! Cega!

– É.

Nos olhos raiados de sangue do carroceiro (ele era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.

Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão calosa.

E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se espargiam nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele.

Impressão, aliás, algo confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura. Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do cercado.

Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem, puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace, ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas. E tal crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso de substância córnea no

serzinho desgraçado e querido.

Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz. Tinha delidas lembranças da claridade sumida. No terreiro plano ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol debaixo do seu poleiro solitário.

Ainda tinha liberdade – o pouco de liberdade necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas bonitas.

E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O ingrato.

Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati, ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:

– Coitadinha da minha ceguinha!

– Tadinha da ceguinha…

Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.

De repente os acontecimentos se precipitaram.

– Entra!

– Centra!

A meninada ria a maldade atávica no gozo do futebol originalíssimo.

A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.

O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para atingir umas nádegas tenras. Zebrou carnes nos estalos da longa tira de sola.

O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos pesados, revolta.

– Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia.

Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na garganta.

Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.

– Onde está a galinha, Inácia?

– Vai ver.

Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue…

Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher se esbugalharam de pavor.

– Não fui eu não! Com certeza um gambá!

– Você não viu?

– Não acordei! Não pude acordar!

Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A velha tombou nocaute, mas sem aguardar a contagem dos pontos escapuliu para a rua gritando: – Me acudam!

Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha açambarcado todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças tremendas contra o gambá.

Todo gambá é pau-d’água. Deixaria uma gamela com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse, havia de matá-lo aos poucos. De-va-gari-nho.

GOSTOSAMENTE.

De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando. Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra mancha escura que se movia dificilmente.

Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado, examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos espertos e inocentes, e começou a rir:

– Kiss! kiss! kiss!

(Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)

O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que favorece os surtos de raposas e gambás nos galinheiros, era esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:

– Vai embora, seu tratante!

O gambá foi indo tropegamente. Passou por baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:

– A lua como um balão balança!

A lua como um balão balança!

A lua como um ……

E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.

Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_ – _Italo_Moriconi 





VIVER OUTRA VEZ – Márcio Barbosa

24 09 2010

Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado.

– A entrevista, lembra?

Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se:

– Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte.

Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros.

Depois, pernas cruzadas – gravador ligado – murmurou, voz rouca:

– O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória.

Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado –

fantasma que se escondia sob a cama.

– O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da

falsa democracia racial – ela insistiu.

Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada?

Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar?

– Minha filha, esqueça-se de mim.

Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:

– Que foi?

– Tonturas, já passa.

Caiu, sem dizer mais nada.

Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com

a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para

serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:

– Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito

sujeitos a ter hipertensão.

Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora.

Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar

“obrigado”.

– Por fazer o senhor ficar nervoso – sorriu -, ir para o hospital?

– Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim…

Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando

futebol nas ruas.

– Só não pensei – continuou – que fosse terminar viúvo, sem filhos,

aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela

Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.

– Nasci aqui – ela afirmou. – É legal. Um pouco perigoso,

ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete

anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo?

O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos?

Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se

iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou

outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou

o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:

– Tem tanto pó!

– Foi acumulando com as decepções – ele brincou.

No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou,

varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina,

em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:

– Racionais, conhece? Bom pra caramba.

Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz

crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria,

enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as

camisas no guarda-roupa?

– Vê-lo recuperar-se – ela dizia. – Já está mais moço.

Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as

suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os

instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que

os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas.

Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.

Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado.

O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão

da gargalhada. Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço

dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam

sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de

água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a

ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma

sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para

brincar na água.

Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo

de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no

peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom

tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai?

– Sou virgem – ela murmurou. – Não posso engravidar.

As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.

De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:

É a sobrinha?- uns perguntavam.

Amante. – outros diziam, baixinho.

Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora.

Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo.

É a concubi na. – Parecia escutar alguém sussurrando.

Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.

No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança

daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam

ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito.

– Coração?

– Um coração enfraquecido pelas desilusões.

Por que não falava desses fantasmas?

– Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?

– O gravador – ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar.

Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:

– No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo

raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam

um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas idéias, a luz da revolta

me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos,

sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão

rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não

sei – enxugou uma lágrima – como não desapareceu.

– O que vocês fizeram foi bonito.

– São coisas que eu preciso esquecer.

– Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo

aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque

acreditou na vida.

– É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande,

parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada

nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se

apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também

aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como

se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos

essa força. Isso é maravilhoso.

Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com

entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito

persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal

e tirou o açúcar branco.

– A pinga com carqueja eu não jogo fora – ele protestou.

Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.

Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta

quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem

reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara.

Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe:

– Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos.

Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?

Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão

pré-menstrual? Que havia?

– Estou grávida – disse, por fim. – Não posso. Tenho estudos.

Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.

Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora.

– Um filho? – ele perguntou, incrédulo. – A soma do meu e do teu

sonho. Olhe – pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito – parou de

doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. – Então abraçou-a e, com a

voz embargada, soluçando, falou: – Te amo.

Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:

É o filho – uns diziam.

O neto – outros apostavam.

– É o amor nos recriando – diziam um ao outro.

 

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Antologia de Contos Brasileiros

10 08 2010

Quanto à divulgação deste material, digo:

Este blog não visa fins lucrativos, não tem nenhum tipo de ganho com nada do que aqui é publicado, não divulgo banners de empresas como forma de fazer propaganda e tirar algum tipo de proveito financeiro.

Os direitos autorais estão aí e serão respeitados.

Aproveito para dizer que não se compara uma leitura on line com a que se faz com o livro na mão.  Acredito que o livro virtual só serve para aguçar a vontade de continuar a leitura com a compra do livro.

Caso haja alguma objeção, por parte dos que respondem por este material, contate-me, por favor.

Faça aqui o download dos contos considerados os 100 melhores brasileiros do século:

Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_-_Italo_Moriconi

Títulos dos contos e seus autores:

Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século





A LÓGICA DE EINSTEIN

2 12 2009

Conta-se que duas crianças estavam patinando num lago congelado da Alemanha. Era uma tarde nublada e fria e as crianças brincavam despreocupadas. De repente, o gelo se quebrou e uma delas caiu, ficando presa na fenda que se formou. A outra, vendo seu amigo preso e se congelando, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim quebrá-lo e libertar seu amigo. Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino:

– Como você conseguiu fazer isso? É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!

Nesse instante, o gênio Albert Einstein que passava pelo local, comentou:

– Eu sei como ele conseguiu.

Todos perguntaram:

– Pode nos dizer como?

-É simples, respondeu Einstein.

Não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não seria capaz.

“Fazer ou não fazer algo, só depende de nossa vontade e perseverança”

 

 

CONCLUSÃO:

Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação, porque sua consciência é o que você é, sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles.





A BELA E A FERA – Jeanne Marie Leprince

6 05 2009

 

adeus 

Era uma vez um jovem príncipe que vivia no seu lindo castelo. Apesar de toda a sua riqueza ele era muito egoísta e não tinha amigos.
Numa noite chuvosa recebeu a visita de uma velhinha que lhe pediu abrigo só por aquela noite.

Com um enorme mau humor ele se recusou a ajudar a velhinha. Porém, o que ele não sabia é que aquela velhinha era uma bruxa disfarçada, que já ouvira diversas histórias sobre o egoísmo daquele jovem príncipe. Indignada com a sua atitude, ela lançou sobre ele um feitiço que o transformara numa fera horrível. Todos os seu criados haviam se transformado em objetos. O encanto só poderia ser desfeito se ele recebesse um beijo de amor.

Enquanto isso, numa vila distante dali, vivia um comerciante com sua filha chamada Bela. Eles eram pobres, mas muito felizes.
Bela adorava livros, histórias, vivia a contá-las para as crianças da vila. Seu pai, Maurício, era comerciante e viajava muito comprando e vendendo seus produtos diversos.

Um dia voltando de uma longa viagem, Maurício foi pego de surpresa por uma forte tempestade, passou em frente a um castelo que parecia abandonado e resolveu pedir acolhida. Bateu à porta, mas ninguém o atendeu. Como a porta do castelo estava aberta resolveu entrar e se proteger da chuva. Acendeu a lareira e encontrou uma garrafa de vinho sobre a mesma. Após bebê-la acabou adormecendo. No dia seguinte uma Fera furiosa apareceu diante dele. Castigou-o por invadir o seu castelo fazendo dele prisioneiro.

A Fera decretou ao velho comerciante que este morreria por tal invasão. Aterrorizado, o pobre homem suplicou:

__ Deixa que me despeça da minha filha.

A Fera concedeu-lhe o pedido. De volta a sua casa, contou o ocorrido a sua filha.

Sem medo, ela decidiu voltar ao palácio com o pai.

Uma vez no palácio da Fera, Bela tomou coragem e fez uma proposta:

___Deixa meu pai ir embora. Eu ficarei no lugar dele.

A Fera concordou, e o pobre comerciante foi embora desolado.

A jovem permaneceu com a Fera no castelo, mas não era mantida na prisão, podia ficar em um quarto ou na biblioteca, local que muito a agradava.
Bela tinha medo de morrer, mas percebia que a Fera a tratava bem a cada dia que passava.

Com o passar do tempo o monstro e a Bela foram ficando mais amigos. Ele se encantava com a forma que a moça via o mundo, as pessoas a natureza. Sentia que ela o via de uma forma diferente, além da sua aparência.

A Fera enfim havia se apaixonado, de verdade. Numa noite, ao jantarem, pediu-a em casamento. Bela não aceitou, mas ofereceu sua amizade.

Apesar da tristeza, a Fera, aceitou o desejo da Bela.
Bela , por sua vez, passava dias muito agradáveis no castelo, sentia-se bem lá, porém com muitas saudades do seu pobre pai.

Certo dia dia, Bela pediu permissão à Fera para visitar o seu pai.

____ Voltarei logo – prometeu.

A Fera, que nada lhe podia negar, a deixou partir. Bela passou muitos dias cuidando de seu pai, que estava doente, tinha envelhecido de tristeza pensando que tinha perdido a filha para sempre.

Quando Bela retornou ao palácio, encontrou a Fera no chão meio morta de saudade por sua ausência. Então Bela soube o quanto era amada. Bela se desesperou, também sentia um algo forte pela Fera. Amizade, amor compaixão.

____ Não morras, caso-me contigo – disse-lhe chorando.

Comovida, a Bela beijou a Fera… e nesse momento o monstro transformou-se num belo príncipe. Enfim, o encanto havia se desfeito. A Fera encontrou alguém que o amava de verdade, além da sua aparência grotesca.
Afinal, a verdadeira beleza está no coração.





13 MELHORES CONTOS DE AMOR DA LITERATURA BRASILEIRA

2 03 2009

 

13 MELHORES CONTOS DE AMOR DA LITERATURA BRASILEIRA

“Vasto mundo” – Maria Valéria Rezende
“Jason” – Lívia Garcia-Roza
“Emanuel” – Lygia Fagundes Telles
“O homem que voltou ao frio” – Cíntia Moscovich
“Histórias de gente e anjos” – Lya Luft
“Onde os oceanos se encontram” – Marina Colasanti
“Conto de verão nº 2: Bandeira branca” – Luis Fernando Veríssimo
“Tílburi de praça” – Raul Pompéia
“História de amor em cartas” – Carlos Drummond de Andrade
“Uns braços” – Machado de Assis
“A parada da ilusão” – João do Rio
“Anotações sobre um amor urbano” – Caio Fernando Abreu
“O amor acaba” – Paulo Mendes Campos

Ed. Ediouro – 2003 – Organização Rosa Maria Strausz





BALEIA – Graciliano Ramos

17 02 2009

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o sacatrapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

– Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Fia também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

– Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.

Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:

– Ecô! ecô!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras.

Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.

Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

 Cem_melhores_contos_brasileiros_do_século_-_Italo_Moriconi