Antígona – Sófocles

 Antigoneleigh

A peça que Sófocles escreveu há 2500 anos, que exalta a coragem de uma princesa enfrentando um rei tirano, continua até hoje provocando admiração do público ocidental e intensas indagações da crítica literária e filosófica sobre a real motivação da devotada filha de Édipo em arriscar a própria vida em nome de um princípio.

 

 

CREONTE, príncipe recém entronado, senhor do poder e do trono, é um homem orgulhoso e cheio de maldade, soberbo raivoso, inflexível, injusto e autoritário, e tem por objetivo fixar dois princípios:

  1. Começar uma nova dinastia despoluída, afastada da maldição que cercava os incestuosos Lambácidas;
  2. Dar uma punição exemplar aos que viessem de alguma forma desafiar a sua autoridade, pela desobediência ou pela rebeldia.

Indignado com a rebeldia de Polinices, que voltou-se contra sua cidade e contra o restante da sua família, determinou um castigo para o jovem príncipe morto – não daria abrigo ao cadáver dele. “…seu cadáver deveria permanecer ao alcance dos animais selvagens e das aves de rapina…”  O enterro por sua vez era considerado um dever sagrado, e a falta de sepultura do defunto estaria condenada a vagar sem descanso no reino dos mortos.

Gradativamente o rei mostrava-se obcecado em firmar-se como tirano. A falta de compaixão e misericórdia ao fazer emparedar Antígona que desafiou a proibição imposta pelo rei, por amor ao seu irmão, favoreceu sua queda. Todos dele se afastaram. O gigantesco preço pago por esta decisão que considerava acertada foi a morte de seu filho e esposa que acabaram suicidando-se. “Meu pobre filho! Jovem ainda, sucumbiste a uma morte insana… perdeste a vida não por tua culpa, mas pela minha!”

Seu destino foi a consequência de seu caráter e atos. Tudo procedeu de sua maldade e crueldade. Creonte age como se fosse um possesso, quase se deliciando com o poder que dispõe de fazer executar a sua vontade inquestionável. Sua inflexibilidade, orgulho e falta de perdão, fez com que perdesse um de seus filhos; acaba em ruínas, na solidão do poder, desejando sua própria morte. “…ai de mim, agora sei que sou um desgraçado…”

 

ANTÍGONA é uma mulher de coragem, orgulhosa, autoconfiante, que lutava por uma causa: prestar homenagens ao irmão defunto fazendo as libações e jogando um pouco de terra sobre os seus restos mortais. Tinha ousadia de liberdade nas atitudes e opiniões, desejava a igualdade entre os povos, buscava um mundo melhor, defensora de uma justiça em um mundo corrupto onde o poder estava totalmente nas mãos do Rei.

O seu destino foi sua escolha. A filha de Édipo, atormentada pela crescente infelicidade da sua família, talvez estivesse ao desafiar a lei, em busca de uma morte gloriosa, solene, autosacrificando no altar da sua raça em extinção. “…será levada a um lugar ermo; e ali será  enterrada viva….” Dessa forma, além de cumprir seu dever em dar a sepultura a seu irmão, deixaria de viver num mundo impuro, cheio de injustiças.

As Mulheres na Antiguidade não tinham o direito de refutar as decisões masculinas, mesmo quando estas provavam serem injustas, pois seria desonroso ao homem acatar a opinião de uma mulher.

Antígona representa a mulher guerreira, determinada em suas escolhas, nenhuma lei humana poderia detê-la naquele seu ato de desobediência, pois seus desígnios eram bem mais profundos. Além de estar contestando um homem, ela desafiou o próprio rei em busca de seus direitos. “…Ele não tem o direito de impedir os meus deveres sagrados…” Entrando em conflito com a lei dos homens → Creonte.

 antigona

Creonte ao tomar conhecimento de que Antígona havia concedido sepultara a seu irmão, violando as ordens impostas por ele, tomado de raiva, ordenou que a enterrassem  viva, pois além dela tê-lo desobedecido, ele não poderia voltar atrás com sua decisão para  fazer a vontade de uma mulher, ainda sendo sua sobrinha e noiva de seu filho.

“,,,será enterrada viva, em um túmulo subterrâneo, revestido de pedra, com alimento o bastante para que a cidade não seja maculada pelo sacrilégio. Lá não chegará som de humana voz, ela poderá conversar em paz com seus mortos queridos e invocar a Hades, o único deus por ela venerado. Talvez a salve da morte…Talvez assim ela se convença de quão inútil é prestar culto aos mortos!”

 

Mesmo sabendo que seu fim seria trágico, Antígona não apela por misericórdia, ela foi uma heroína, teve coragem de assumir todos os atos cometidos, e o símbolo da resistência a toda essa tirania  foi sua sentença de morte – pagando com sua própria vida.

Na figura de ISMÊNIA temos uma mulher oposta a Antígona. Ela se mostra uma mulher passiva, frágil, insensível as responsabilidades que por sangue pertencia, covarde e temerosa com as consequências que poderia sofrer, adverte a irmã que elas descendem de uma dinastia amaldiçoada onde todos os antepassados  tiveram uma morte horrível, por isso prefere acatar as determinações do rei.

“Laio, o avô, foi morto pelo próprio filho Édipo, que depois arrancou os próprios olhos, Jocasta, simultaneamente, a mãe e avó delas, se suicidou-se, e seus dois irmãos, Etéocles e Polinices, foram-se na voragem do fratricídio.”

 

TIRÉSIAS, defensor dos injustiçados e abandonados, vem de longe para proclamar o oráculo que os deuses lhe havia mostrado através de uma visão – aquela era sua missão- denunciar todas as injustiças e mostrar que o orgulho era a chave de todos os contratempos  que havia acontecido na cidade. Sua voz era a única que poderia ser ouvida, pois ele era um enviado dos deuses.

O celebrado adivinho que era cego de nascença podia ver novas soluções para os problemas e dificuldades, ele denuncia as atrocidades e vem alertar Creonte dos malefícios de suas atitudes, conclui que “a cidade sofre por tua culpa…”…por lares santos terem sido profanados…” Este, possesso, acusa o mago de interesseiro. ” Toda a gentalha dos adivinhos é ávida de dinheiro.” Tirésias sente-se frustrado com a cegueira de Creonte – um homem intratável e intolerante – e responde que ele está totalmente infectado pela falta de juízo. Previu então que uma grande desgraça estava prestes a abater na casa do rei. Assustado com as palavras certeiras do profeta toda a cegueira de Creonte cai por terra e ele começa ver seus erros e se arrepende profundamente. “Erros de minha insensatez! Obstinação fatal! Eis aqui, vítimas e algoz da minha família! Ó sorte miserável!” .

 

Agora nada importava, não importam os deuses, não importa o destino, não importa as maldições, o que realmente importa é a consciência diante da culpa. Importa a dignidade de quem enfrenta a si mesmo, assumindo seus erros. Atormentava-o agora a solidão do poder, ninguém mais o apoiava.” Ó anciãos, todos vós sois como arqueiros que atiram para este homem como sobre um alvo.” Sua vida torna-se um noite profunda, na purgação de todos os seus crimes, na lembrança constante da própria culpa e não fica impune de seu maior juiz: ele próprio.

Marli Savelli de Campos

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