Aviso

18 01 2013

rtAVISO 

Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.

Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.

Lya Luft





Vintage

30 08 2010

 

VINTAGE

Ideal de beleza
Na revista, tendência da moda
Desfile de poemas fashions
Anorexia,
Bulimia,
Tudo diet, light
Glamour!…

Alma de tecido
Linha tecendo versos em fios
Cortes profundos no ser.
Na passarela,
Tropeça na autenticidade
Logotipos,
Pseudônimos, anônimos

Contemporaneidade
Moda “…ntistas”, démodé?
Mistura de peças antigas,
o look dos Top’s,
com itens modernos, quem resiste?
Sentimentos e emoções
enrubescidos, ainda pulsando.

Cecília Meirelles desfila
vestido florido com sandália de outono:
“Aprendi com a primavera;
a deixar-me cortar e voltar sempre  inteira.”

Carlos Drummond de Andrade veste
blusa tecida por musa:
“As coisas findas
muito mais que lindas, essas ficarão”

Clarice Lispector varia o figurino
de acordo com a ocasião:
“Leve como brisa, forte como ventania,
Depende de quando e como você me vê passar”

Machado de Assis, da cabeça aos pés,
faz a moda acontecer:
“Cada qual sabe amar a seu modo…
o essencial é que saiba amar”

Para a última moda, um pouco mais de poesia
à moda antiga.
Luzes, orquestra, flores…
Um sarau entre os festejos.
No que vê, no que ouve, no que lê.
O prazer,
Ao grande, ao belo!

Marli Savelli

 

Vintage: “moda …ntistas” – anos 20, 30, 40, 50, 60, setentistas e oitentistas.





Pássaro na Selva

21 08 2010

PÁSSARO NA SELVA

Mata densa limita a visão.
Voa perdida.
Asas afiadas, foice no dedo.
Cólera reprimida.
Olha para os céus, grita por Águia!
Segue indefinida.

Arma-se,  atira, explode.
Chora escondida.
Morde o veneno do escorpião.
Vale a ferida.
No matagal risca o fósforo.
A chama suicida.

Marli Savelli





Eu, 34 Anos

6 07 2010

EU, 34 ANOS

Minha vida (tum, tum, tum)
O relógio (tic-tac , tic-tac)
As batidas do meu coração
aos passos do tempo.
Ele caminha mais rápido que eu.
Não o decifro,
aos poucos, me devora.

Tic Tac… Tum Tum
Tic Tac Tic …Tum
Tic Tac Tic Tac… T
                                             u
                                                              u  m…

A vida começou a relaxar comigo.
Deixou uns dois, três
 fios brancos de meus cabelos
sem retoques (meu Deus!)
No impulso
pensei arrancá-los.
Vã ilusão.

O que vai fazer de mim?
Rabiscar a minha pele?
Faça traços à lápis
para que eu possa apagar
quando for passear.
Tenho medo
de olhar no espelho amanhã.

E, tu, meu amor,
que me acompanha
e me consola,
também temo
um dia te buscar
e não mais te encontrar.
Eu te amo!

Marli Savelli

Devido o excesso de melancolia do dia de hoje, despejo um pouco de nostalgia por aqui… Saudades…

http://aquarioliterario.wordpress.com/2010/07/07/eu-34-anos-2/





Echarpe Vermelha

31 05 2010

ECHARPE VERMELHA

Ela passeia por ruas escuras.  
Vermelha echarpe na cabeça reluz. 
Nos lábios, batom carmim.  
Nas unhas, um dos sete  
vermelhos capitais. 
Anda com pensamento distante,  
destino afora.  
À espreita, um lobo, olhar em brasa,  
penetra no caminho,  
solidifica o breu, a faz perder o rumo.  
Devora os seus ânimos, 
e com uma enorme boca  
traga os sonhos 
de sua cesta de ilusões. 

 Marli Savelli





Caça ao Tesouro

25 05 2010

CAÇA AO TESOURO

A vida se dilui na efemeridade.
Todos nós, um “Zé Ninguém”.
Seja mendigo, príncipe, ou sei lá quem.
O mapa dourado segue…
Em busca, no labirinto, persegue,
dobra as esquinas, os muros.
Às pressas… o futuro.

Voam as horas num instante.
O amanhã chega, é dia!
Vão se apagando distante…
Só lembranças fugidias.

Não pára para abrir o presente:
“O Presente”, entende?
Segue velozmente a  viagem
na vã ilusão, do personagem,
que ajuntando ouro,
viverá, aqui,  na ilha do tesouro,
a tão sonhada imortalidade?

Marli Savelli





Sol Brasileiro

21 05 2010

 

SOL BRASILEIRO 

Caminhando ao sol, um fogo escaldante.
Ferve o chão de brasa coberto.
Árvore ou abrigo – nada – fulminante.
Nem sequer uma sombra… deserto.

 Estou cansada, a terra esbofeteia.
Tenho sede… só faz poeira.
À frente um desfile sem trégua.
Atrás, uma multidão seguindo a légua.

Se parar, me devoram… famintos.
A carne, com as pisadas, esmaga.
Numa digestão agindo pelo instinto…
Alguém  sangrando, queima, apaga.

Marli Savelli